Um na multidão: de máscara na arquibancada ou cartaz no campo, Gabigol se declara ao Flamengo

Em entrevista, artilheiro comenta identificação com o clube, sobre seu futuro após o término do empréstimo e da implicância dos rivais: "Tomara que me xinguem mais, isso só me motiva"

Publicado em: 20 de Agosto de 2019
Foto Por: André Mourão / Foto FC
Autor: Cahê Mota e Fred Huber — Rio de Janeiro
Fonte: Globo esporte

Quando acertou com Gabigol, o Flamengo contratou mais do que o principal goleador do Brasil. Incorporou ao clube um torcedor, como se tivesse sido sempre um "Garoto do Ninho". Nesta quarta-feira, ele é uma das principais armas do Rubro-Negro para enfrentar o Internacional no primeiro jogo das quartas de final da Libertadores. A missão é manter o sonho do título vivo e no fim do ano entrar para a história do clube.

 

00:00/07:17Quando não pode ajudar com gols, ele tenta contribuir da forma que é possível. Na vitória contra o Grêmio por 3 a 1, ele se recuperava de uma lesão na coxa e não foi relacionado. Foi para o Maracanã torcer, mas não no local que queria.

 

- A minha ideia era colocar uma máscara e ficar lá na organizada, mas meus amigos não deixaram. Se descobrissem, ia dar ruim (risos). Qualquer dia vou aparecer lá - afirmou.

 

Além do ótimo desempenho, Gabigol mostrou aos rubro-negros um estilo irreverente, com comemoração efusiva em cada um dos 24 gols que já marcou em 34 partidas este ano. A torcida do Flamengo adora. Já os torcedores rivais costumam pegar implicância com o atacante pelo que consideram uma "marra". Paciência...

 

- Tomara que me xinguem mais, isso só me motiva.

 

Em entrevista, Gabigol comentou sobre a grande identificação com o Flamengo e sobre seu futuro indefinido após o término de seu empréstimo, no fim deste ano. Até lá, a ideia é fazer ainda muitos gols, conquistar títulos e, caso não permaneça, deixar saudade.

 

GloboEsporte.com: quando começou seu encantamento com o Flamengo?

Gabigol: Todos os jogadores têm a vontade de jogar pelo Flamengo. Primeiro pelo clube grande que é, e também pela torcida. É difícil ver estádios lotados como o Flamengo faz. Isso motiva todos a estarem sempre no mais alto nível, te faz crescer. Cada jogo é uma final. É difícil falar um momento... Nunca me imaginei no Flamengo tão rápido. Mas quando surgiu a oportunidade, já tinha a vontade. Na época da Inter de Milão, me perguntaram qual clube eu gostaria de jogar, e eu disse o Flamengo, sem ser o Santos. Não imaginava que seria tão cedo.

 

Sua estreia profissional foi contra o Flamengo, em Brasília, na despedida do Neymar pelo Santos...

Foi bem impactante. Eu tinha 16 anos, era a despedida do Neymar... Eu nem esperava entrar, mas acabei entrando. Estava muito cheio. Teve um jogo aqui (Maracanã) que eu perdi um pênalti, aí partiu deles (torcida) começar a gritar meu nome. Não esperava uma coisa dessa. Foi um carinho recíproco.

Há alguns anos, era comum nos times cariocas a irreverência dos artilheiros dos times. Atacantes como Romário, Renato Gaúcho e Túlio disputavam o título de "Rei do Rio". Você acredita que resgata um pouco deste espírito, por sua irreverência e comemorações?

 

Não acompanhei esse tempo, mas há alguns dias comentaram isso comigo. Era provocações legais, e levavam numa boa. Acho que tem que ser assim. Obviamente que algumas brincadeiras passam do ponto, mas quando são saudáveis têm que ser levadas de uma maneira divertida.

Naquela época não tinham as redes sociais e os "haters".

Acho que eles iam apavorar mais do que a gente (risos).

Você concorda que desperta nos torcedores sentimentos bem diferentes? Sua torcida costuma de amar, mas os rivais costumam te odiar.

Em todos os clubes onde joguei, mesmo na Inter de Milão, onde joguei pouco, quando eu ia aquecer parecia que tinha sido um gol. Eu sentia que gritavam meu nome. Me disseram que nunca aconteceu nada parecido lá. Até por isso tenho um carinho imenso por eles. Sempre me apoiaram, gritavam meu nome no San Siro e eu nem tinha correspondido ainda para aquilo.

Sinto que os torcedores adversários não gostam de mim. Tentam me desestabilizar. Mas aí é que eu gosto mais, que me sinto mais à vontade. Me xingam bastante, acho que não gostam de mim. Veem como uma marra. Mas sempre fui assim. Dizem que estou diferente, mas não. Sempre fui assim, tenho minha confiança. Me dedico muito no dia a dia nos treinos para melhorar, faço as coisas com alegria. Não tenho do que reclamar. Tenho 22 anos, números diferentes de quase todos da minha idade, e não tenho porque não ser confiante, não ter alegria. Jogo em um time grande, moro em uma cidade incrível, a torcida é maravilhosa, disputamos títulos e jogo ao lado de grandes jogadores. Não tenho porque não ser autoconfiante.

Então, estranho seria se te deixassem passar despercebido. Sua função é incomodar o adversário.

Eu levo na boa. Acho isso bacana. Tomara que me xinguem mais, isso só me motiva a querer mais, crescer. Quando jogo nos estádios adversários, sei que, pelo meu jeito, vou sofrer essa pressão. Estou pronto e gosto. Fico mais concentrado, fico querendo responder dentro do campo, com gols, comemorações e vitórias.

Acha que esse seu estilo combina bem com as características da Libertadores?

Tem. É bom jogar fora de casa com pressão. É o que eles sentem no Maracanã lotado também. Devem ter jogadores que também fazem isso como motivação extra. Quando joguei contra o Flamengo, também pensei: "Já pensou se a gente ganha aqui, com essa multidão?". É normal.

Já parou para pensar que o Flamengo recentemente nunca esteve em um estágio tão avançado na Libertadores, a apenas quatro jogos da final, para tentar repetir 1981? Você já até cantou essa música "dezembro de 81". Sente esse peso?

A gente não pensa assim, o pensamento é jogo a jogo. Futebol não é uma coisa exata. Nos dedicamos, fazemos a coisas como temos que ser. Nossa torcida não quer só a Libertadores, ela pede o mundo (risos). São exigentes. Mas o Flamengo está brigando por tudo nos últimos anos, e tem que ser assim. Uma hora as coisas vão acontecer, naturalmente. Estamos trabalhando bem.

Apesar de ser um "Menino da Vila", em campo parece que você já se sente um "Garoto do Ninho". Como é isso? Contra o Grêmio você teve a experiência de ficar só na torcida...

Sofri muito. A minha ideia era colocar uma máscara e ficar lá na organizada, mas meus amigos não deixaram. Se descobrissem, ia dar ruim (risos). Mas minha ideia era essa. Qualquer dia vou aparecer lá (risos). Mas não deixaram eu fazer. Meu pai ia ficar bravo também. Quem sabe não vou fantasiado?

Seu desempenho e número de gols aumentaram depois que o Jorge Jesus assumiu o comando e te deixou em um posicionamento diferente. Isso foi o fator determinante?

Todos os jogadores me ajudaram bastante. Jogo em uma posição em que preciso ser ligado sempre, e sem meus companheiros isso não iria acontecer. Todos se ajudam muito, aí o companheiro sobe de patamar. Mas me adaptei bem nessa função, tenho mais liberdade de movimentação, para sair da área e buscar a bola.

Não jogo só para fazer gols, mas para criar jogadas. O Mister vê muito assim, e eu gosto disso. Quando fico sem fazer gols, algumas pessoas não veem que mesmo assim eu crio jogadas, abro espaço...

A percepção do Jorge Jesus das suas características então foi muito importante?

O Cuca também me dava essa liberdade, mas ele um pouco menos. Ficava bravo quando eu saía da área. Aqui ele me dá total liberdade, mas claro que tenho minhas obrigações de marcar, de posicionamento em bola parada... Ele me ajuda.

Você tem contrato até o fim do ano e ainda não é possível saber o que vai acontecer depois. Mas você acredita na possibilidade de já nesses 12 meses marcar sua história no Flamengo?

Claro que com títulos ficaria bem mais marcado, mas tento sempre deixar saudade, se eu for sair. O próximo que vier e usar a 9, a torcida vai lembrar quem utilizou antes. Foi assim no Santos. Claro que agora estão um pouco bravos comigo, mas creio que deixei saudade. Acho que se o ano acabasse agora, eu deixaria saudade no Flamengo.

Parece que você está há muito tempo no futebol, mas só tem 22 anos...

Muita gente não lembra disso, né. Mas já vivi muitas coisas, e isso me ajuda. Acho que já devem estar enjoando da minha cara (risos). Já joguei vários Brasileiros, Copas do Brasil... Tenho desejo de buscar mais coisas, e no dia que eu parar e que as pessoas analisarem o que eu fiz até 22 anos, acharem que fiz muitas coisas. Dá para eu ir e voltar da Europa duas vezes ainda (risos). Tenho muito pela frente. Minha jornada está só começando.

Sempre que há alguma notícia sobre possíveis contratações, como no caso do Balotelli, é possível notar muitos comentários de torcedores pedindo para a diretoria economizar e não esquecer de comprar os seus direitos. Como encara isso?

Fico feliz pelo carinho, isso me motiva ainda mais. É difícil conquistar a torcida. Não são todos que passam e deixam saudade. Não são todos que se adaptam tão rápido. Mesmo no início, quando fiquei cinco jogos sem fazer gol, não deixaram de me apoiar. Me deram carinho. Tudo que um jogador quer é uma estrutura como essa, estar ao lado de jogadores como os que temos aqui e com uma torcida dessa.

Quais seus planos para voltar a ser convocado para seleção brasileira?

O que me credencia é meu trabalho no Flamengo. Tenho que continuar assim. Estou bem tranquilo. Fico feliz de ver meu nome ser citado novamente, sendo comparado com jogadores que estão na Europa. Vou buscar, porque é um sonho de todos os jogadores.

Quando você surgiu, com 14 anos era chamado de Gabigol. Quando foi para o profissional, houve uma tentativa de evitar o apelido. Hoje você acredita que essa marca faz faz parte da sua personalidade, do seu carisma?

Não tenho peso em fazer gol. O Guerrero, por exemplo, é centroavante. Eu, não. Aqui as pessoas falam muito isso de ter que fazer gol. Eu tenho é que jogar futebol. Se outro companheiro marcar, tá bom. Óbvio que o gol credencia a muitas coisas. Se um zagueiro fizer 20 gols no ano, vai ser diferente. Mas não levo isso como peso, mas como prazer. Quem não queria estar no meu lugar, jogando no Flamengo, disputando uma Libertadores? O meu nome não é peso.

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