Agricultores denunciam descaso do governo e abandono da Vale após tragédia em Brumadinho: 'Lama passou pela minha alma'

Cinco meses depois do rompimento da barragem, produtores rurais fora do trajeto da lama reivindicam acordo com Vale e pedem apoio do poder público; segundo eles, mineradora se recusa a fechar acordo para indenização.

Publicado em: 25 de Junho de 2019
Foto Por: Patrícia Fiúza
Autor: Patrícia Fiúza, G1 Minas
Fonte: G1
Maria Betânia investiu, em dez anos, mais de R$ 300 mil para vender peixes. Produção está parada desde rompimento da barragem

 “Toda vez que a gente recorre ao município, a pergunta é sempre a mesma: a lama passou pelo seu quintal? E a resposta vai ser também sempre a mesma: não, ela passou na minha alma”.

A declaração é da produtora rural Fernanda de Oliveira, representante de um grupo de agricultores da região de Piedade do Paraopeba. Eles denunciam que estão desamparados pelo poder público e pela Vale depois do rompimento da barragem de Córrego do Feijão, há exatos cinco meses.

Fernanda se mudou para a cidade com os dois filhos, ainda crianças, há três anos. Ela escolheu trocar o estresse da vida em Belo Horizonte pelo sossego do povoado de Piedade do Paraopeba, em Brumadinho, em busca de um sonho: viver uma vida mais tranquila e ajudar produtores que vivem da agricultura familiar a expandirem e a formalizarem seu negócio.

Em seu terreno, passou a dar aulas de agricultura orgânica e reuniu um grupo de 22 produtores locais no projeto Feira Movimento. Juntos, conseguiram um espaço fixo para vender os produtos. “Em seis meses, o projeto aumentou em 10% a renda do pessoal”, disse.

Os negócios da região, que é considerada cinturão verde da Região Metropolitana de Belo Horizonte, iam bem, até o dia 25 de janeiro, quando a barragem de Córrego do Feijão se rompeu, deixando pelo menos 246 mortos. Vinte e quatro pessoas ainda estão desaparecidas.

A tragédia aconteceu a pelo menos 28 quilômetros do local onde Fernanda e os outros 22 agricultores vivem. Mas acabou afastando os clientes da região.

“Falou que é Brumadinho, todo mundo teme, acha que é produto contaminado, tanto por parte da água, quanto por parte do solo”, lamenta.

Fernanda, que ainda guarda fotos da frente da sua casa tomada pelo verde da horta, agora lamenta o mato alto que tomou conta de tudo. Nem demanda para os cursos que ela ministrava existe mais.

"Na verdade, a definição de atingidos está equivocada, principalmente com relação à agricultura, porque o acordo realizado entre Vale e Defensoria limita atingidos a trajetória da lama. Mas toda a agricultura de Brumadinho foi impactada. Através desta visão limitada de atingidos, hoje a comercialização está parada e a gente não consegue escoar a produção”, afirmou.

Segundo Fernanda, houve uma tentativa de acordo com a Vale, com apoio da Defensoria Pública e Ministério Público, para recebimento de indenização e garantia que a empresa pagasse dívidas dos agricultores. “Tentamos acordo duas vezes com a Vale. Fizemos a proposta de um valor indenizatório e o pagamento das dívidas, porque produtores investiram, mas houve uma negativa da empresa,” disse.

A produtora rural denuncia também abandono por parte do poder público. Segundo ela, após o rompimento da barragem, a Emater e a Secretaria de Agricultura fizeram um levantamento com agricultores, mas só considerou aqueles onde a lama efetivamente passou.

Empréstimos e dívidas

A família de Lucilaine Aparecida Fonseca foi uma das que recorreu a empréstimos para investir e, agora, está endividada. "A gente tinha feito um investimento em meados de agosto. A gente começou a ter ideia de expandir, porque a saída estava muito boa. A gente comprou caixa d'água, canos... Fizemos um investimento de mais de R$ 10 mil para poder crescer com a horta", contou.

Ela, o marido e os pais começaram a viver exclusivamente da produção de hortaliças e de leite. Eles vendiam cerca de 300 pés de alface em um mês. Também colhiam rúcula, salsinha, cebolinha e outros. Chegaram a vender para hotéis, restaurantes e até para o condomínio de alto luxo Alphaville.

Após o rompimento da barragem, a produção é escoada apenas para amigos e para a escola dos filhos do casal.

"A gente desistiu de mexer e agora tá na luta para tentar pelo menos o reembolso deste investimento todo que a gente fez", reivindica.

Lucilaine viveu a vida toda na mesma casa. O marido, Rondineli Mendes de Oliveira, chegou logo que se casaram e, apesar das dificuldades advindas com a tragédia, está otimista e não pensa em sair dali. “Foi um baque para todo mundo. Mas a vida vai engrenando de novo”, afirmou Rondineli.

‘Deixei de fazer minha casa para investir na produção’

Perto dali, uma casa simples com tijolos à vista esconde uma produção de tilápias orgânicas que já foi grandiosa. A produtora, Maria Betânia da Silva, chegou a vender uma tonelada de peixes por mês. Com o rompimento da barragem em Córrego do Feijão, as vendas despencaram. “Hoje, não vendo nem dez quilos”, lamentou.

Quando a barragem se rompeu, Maria Betânia estava a caminho de casa, para receber um cliente que compraria suas tilápias. Ela não conseguiu chegar antes das 18h, por causa da interdição da rodovia Alberto Flores, que foi tomada pela lama. Apesar de a propriedade dela não ter sido atingida – e estar longe de Córrego do Feijão – o cliente que iria buscar os peixes nunca mais apareceu.

Maria Betânia diz ter investido, em dez anos, pelo menos R$ 300 mil com equipamentos, como bombas para os tanques, ração para os peixes, tratores e mão de obra. “Meu investimento está todo aqui. Deixei de fazer minha casa, de viver melhor, para investir na produção. E perdi tudo”, disse.

Depois da tragédia, ela precisou comprar um novo freezer, onde armazena os peixes que precisa tirar do tanque e não consegue vender. E teve que pegar empréstimo, de mais de R$ 19 mil, que precisou financiar em 45 prestações para tentar retomar o seu negócio.

Além dos peixes, ela produz verduras e frutas no sistema de aquaponia, em que as fezes dos animais são aproveitadas como fertilizante e há grande economia no uso da água. Mas, segundo Betânia, nem estes produtos consegue vender. “Só se eu mentir que não sou de Brumadinho. E isso não vou fazer. Meus clientes me conhecem”, afirmou.

Maria Betânia também questiona a ausência da Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural) e da Secretaria de Estado de Agricultura, que, segundo ela, não estiveram no local para conhecer a realidade dos produtores que estão fora da rota por onde a lama passou.

Muito além da perda econômica, Maria Betânia lamenta a vida dos amigos que se foram. “Perdi muito mais do que 30 pessoas que eu conhecia naquela tragédia. (...) Fiz um curso e tinha uma horta comunitária em Córrego do Feijão que frequentava. Todos eram dali”, contou.

O que dizem Prefeitura, estado e Vale

Prefeitura de Brumadinho informou ao G1 que conseguiu, junto ao estado, R$ 300 mil para o Programa de Aquisição de Alimentos, em que produtos são comprados direto dos produtores e doados a entidades socioassistenciais. Qualquer agricultor familiar pode vender sua produção ao PAA.

A Secretaria também informou que foi montado um grupo de assistência em Brumadinho e que uma rede de supermercados se dispôs a comprar a produção de agricultores da cidade. Quem tiver interesse, basta procurar a Secretaria de Agricultura de Brumadinho ou entrar em contato pelo número (31) 3571-2512.

Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimentodisse que foi feito um levantamento preliminar de produtores rurais atingidos ao longo do Rio Paraopeba e de suas necessidades imediatas. Foram identificadas 498 famílias. Os dados, segundo a Secretaria, foram compartilhados com a Vale para que fosse prestado o auxílio.

G1 questionou se haverá algum levantamento ou suporte específico aos produtores que não foram diretamente atingidos pela lama, mas a Secretaria não respondeu.

Na nota, o órgão ainda afirmou que apresentou à Prefeitura da cidade e à Comissão de Agropecuária e Agroindústria da Assembleia Legislativa um projeto para estímulo de produção de flores em Brumadinho, como alternativa de diversificação da atividade produtiva. Não há data para iniciar o projeto.

Questionada sobre as ações voltadas aos produtores rurais, a Vale disse que 95 pessoas que tiveram a produção impactada pelo rompimento da barragem receberam R$ 15 mil de doação.

Segundo a mineradora, o Termo de Compromisso assinado com a Defensoria Pública no dia 5 de abril para acordos individuais também abrange os produtores rurais e que, aqueles que estiverem interessados em formalizar acordos para indenizações, por danos materiais ou morais, já podem procurar a Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais na cidade.

Em relação às dívidas adquiridas pelos produtores rurais, o Tribunal de Justiça informou que foi definido em audiência no último dia 18, na 6ª Vara da Fazenda será enviado um ofício ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal, ao Ministério da Agricultura e à Casa Civil da Presidência da República para identificar os produtores rurais que têm contrato de crédito e dívidas com instituições financeiras. O pedido vai envolver moradores de 24 municípios mineiros.

 

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