Opinião: encurralado pelos selvagens, o futebol precisa reagir com palavras firmes e certas

Não é possível que a dantesca cena do Beira-Rio ou as ameaças a jogadores não os façam, enfim, agir como classe, e não mais por interesses pessoais

Publicado em: 22 de Julho de 2019
Foto Por: Raisa Simplicio / Goal.com
Autor: Globo Esporte
Fonte: Globo Esporte
Diego é cobrado por torcedores em aeroporto

Em manifestação sobre uma das mais desoladoras e repugnantes cenas recentes do futebol brasileiro, o presidente do Internacional apontou falta de bom senso. Ao comentar o empate sofrido em casa depois de abrir 2 a 0 sobre o Fortaleza, o diretor do Atlético-MG disse que estavam todos indignados.

Não é novidade, tampouco exclusividade do futebol, a confusão de valores da sociedade. A agressão da torcedora colorada contra a gremista diante do filho que havia ganhado uma camisa tricolor do ídolo não é mera questão de bom senso. É uma ferida aberta num momento que deveria ser apenas mágico e eterno para aquele garoto.

Por outro lado, não cabe indignação com um resultado construído dentro das regras do esporte. Jogos com esse roteiro acontecerão até o fim dos tempos pelo simples fato de que sempre haverá outra equipe que estuda, trabalha e treina para fazer sua estratégia prevalecer sobre a do adversário, seja ele bilionário ou endividado, ofensivo ou defensivo, líder ou lanterna.

São nocivas as mensagens habitualmente transmitidas pelos personagens do futebol. Dos protagonistas, jogadores, a técnicos e dirigentes coadjuvantes. É preciso entender, com urgência, a necessidade de desviar o rumo de uma tragédia. Ela acontecerá se continuarem a ser tratadas com normalidade emboscadas em aeroportos, ruas e hotéis.

A selvageria no Beira-Rio, as ameaças a Diego e demais flamenguistas, os protestos contra os palmeirenses, deveriam provocar reações fortes de jogadores dos 20 clubes da Série A. Passou há muito a hora de agirem como classe, e não apenas por interesses individuais.

É com isso que todos precisam se indignar. Os artistas do espetáculo não podem assistir passivamente à destruição da relação com o público que ainda se dispõe a ter o jogo como paixão, e não como argumento para tirar do armário sua desumanidade.

O Brasil vive um período doente no qual palavras valem pouco e têm significado facultativo, que atende conveniências. O futebol precisa passar uma mensagem clara. Os clubes demonstram semanalmente criatividade e rapidez quando o intuito é provocar adversários nas redes sociais. Há de haver espaço e tempo para ações mais úteis e coletivas.

A CBF também precisa intervir. Tudo isso aconteceu no seu principal campeonato. Nenhuma das medidas que precisam ser tomadas pela nova gestão, de um calendário mais equilibrado a gramados adequados à prática do bom futebol, fará sentido se selvagens estiverem livres para constranger, coagir, ameaçar.

Todos os times do mundo vão perder mais campeonatos do que ganhar. Não há vitoriosos sem derrotados. O placar de um jogo não determina o valor do esportista que disputa. O herói não vira vilão de domingo para quarta-feira. O futebol está perdendo para a selvageria. E se ninguém se indignar com essa derrota, o caminho pode não ter mais volta.

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