Os desafios de Rogério Ceni no Cruzeiro não se resumem à estreia contra o "mestre"

Técnico terá de isolar grupo dos escândalos de gestão e aplicar seu jogo veloz num grupo já envelhecido. O primeiro capítulo será contra Sampaoli, referência do ex-goleiro

Publicado em: 13 de Agosto de 2019
Foto Por: Camila Lima
Autor: Globo Esporte
Fonte: Globo Esporte
Rogério Ceni é o novo treinador do Cruzeiro

O grande mérito da curta trajetória de Rogério Ceni como técnico é aplicar às suas equipes traços fortes de identidade. Desde as primeiras partidas de sua malsucedida passagem pelo São Paulo até as mais recentes do brilhante trabalho no Fortaleza, sempre foi possível identificar a assinatura de Ceni na velocidade de suas transições, nos jogadores postados no campo de ataque para construir, no uso do goleiro como mais um jogador de linha.

Espera-se, portanto, já no próximo domingo, um Cruzeiro com nova cara diante do Santos de Jorge Sampaoli, referência de conceito de jogo para Rogério – o ex-goleiro visitou o argentino no Sevilla quando estudava para iniciar a nova carreira.

Não será fácil, porém. Assim como os times de Sampaoli, os de Ceni gostam da posse de bola, mas não são adeptos da cadência, da troca horizontal de passes. São verticais, objetivos, velozes, invadem em poucos segundos a metade ofensiva do campo. Especificamente na estreia, o Cruzeiro terá pela frente um técnico mais experiente e uma equipe apoiada numa ideia semelhante, só que mais consolidada, treinada para isso desde janeiro.

Ao longo do campeonato, Rogério terá de enfrentar também empecilhos de seu próprio grupo. A média de idade da equipe titular derrotada pelo Internacional na primeira semifinal da Copa do Brasil era de 29,9 anos. Mano Menezes escalou sete jogadores com mais de 30 anos – Fábio, Dedé, Léo, Henrique, Ariel Cabral, Robinho e Thiago Neves.

Há ainda Fred, um centroavante que jamais deve ser descartado, mas que elevará ainda mais a faixa etária quando estiver no lugar de Sassá.

A maior decepção relacionada ao trabalho de Mano em 2019 está relacionada à falta de evolução ofensiva em relação ao Cruzeiro bicampeão da Copa do Brasil. O time estagnou. Rogério não admite comandar de maneira diferente da tentativa de vencer sempre.

Como treinador, ele subiu degraus da maturidade no aprendizado da necessidade de adaptação do seu conceito aos atletas disponíveis e na busca de equilíbrio defensivo. Ainda assim, por vezes, o Fortaleza sucumbiu fisicamente no segundo tempo das partidas. Dosar o ímpeto de um grupo envelhecido será necessário na Toca.

Além das questões técnicas, táticas e físicas, das que lhe competem, Rogério Ceni terá de lidar com o impacto dos escândalos administrativos revelados por Gabriela Moreira e Rodrigo Capelo, numa série de reportagens. A situação financeira é temerária e houve atraso recente nos salários dos jogadores, fato que obviamente dificulta a mobilização necessária para modificar rapidamente a maneira de atuar e o panorama no campeonato.

É impossível medir o tamanho do reflexo dos problemas de gestão na derrocada dos últimos meses, mas é inevitável que haja relação. Tentar minimizar esse dano num cenário estranho será uma das árduas missões do novo técnico.

Rogério Ceni é dos mais promissores brasileiros na função. Pauta suas ideias na coragem. Manteve dos tempos de goleiro a personalidade de trabalhador incansável, obstinado, daqueles que respiram o próximo jogo e nada mais. A necessidade de alinhar a expectativa geral em torno de um grande clube e um elenco campeão, veterano, às dificuldades atuais e aos seus métodos torna o Cruzeiro uma das atrações mais interessantes do campeonato a partir de agora.

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