Trump rompeu tabu e agiu contra interesses israelenses e americanosAs sondagens indicam que, na sua maioria, os judeus americanos não aprovam o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel fora da moldura de um acordo de paz.

Publicado em: 09 de Dezembro de 2017
Foto Por: Mohammed Salem/Reuters
Fonte: UOL
Manifestante palestino próximo da fronteira de Gaza nesta sexta-feira (8)

 

Trump atravessou a linha vermelha respeitada por presidentes democratas e republicanos exclusivamente para cumprir promessa eleitoral dirigida a um núcleo duro de seu eleitorado: os evangélicos, que veem Israel como fruto de desígnio divino, não como produto da política e da história humanas. Rompendo um tabu de Clinton, Bush e Obama, agiu contra os interesses nacionais israelenses e americanos.

Binyamin Netanyahu celebrou o triunfo, que é de seu governo mas não de Israel. O sionismo expansionista, representado pelo primeiro-ministro, almeja perpetuar o Grande Israel, ainda que homenageie retoricamente o princípio da paz em dois Estados.

Já o sionismo moderado deplora uma decisão que solidifica o status quo da ocupação dos territórios palestinos. Do ponto de vista deles, a paz é imperativa, não necessariamente em nome dos direitos nacionais palestinos, mas da proteção da democracia israelense. De fato, a natureza democrática do Estado judeu é envenenada pelo domínio perene sobre uma população árabe majoritária que carece de direitos políticos.

O gesto de Trump fere, em diversos sentidos, a reputação internacional dos EUA. Depois dele, a superpotência perde o estatuto de potencial patrocinador da paz em Israel/Palestina. O lugar será ocupado pela União Europeia e pela Rússia.

Os escassos minutos do discurso trumpiano cavaram um fosso entre os EUA e seus aliados tradicionais na região. Operando como agente do extremismo sionista, Trump aliena a Turquia, a Arábia Saudita, a Jordânia e o Egito. Sem disparar um único míssil, a Rússia avança um novo passo para converter-se em potência decisiva no Oriente Médio. Na esteira da montagem de uma estrutura de paz na Síria, Putin ganha a oportunidade de articular negociações entre israelenses e palestinos.

O reconhecimento de Jerusalém é mais uma volta no parafuso da retração americana da cena mundial. Trump retirou os EUA do projeto da Parceria Transpacífica, abandonando o Oriente à influência chinesa. Na sequência, abandonou o tratado do clima de Paris, renunciando à principal iniciativa diplomática multilateral, e rompeu com a Unesco.

Humilhação: o acordo de paz na Síria, tecido pela Rússia com a Turquia e o Irã, foi comunicado ao secretário de Estado americano por meio de um telefonema de Putin. Quase ao mesmo tempo, chegou a Washington a notícia de que uma desconfiada União Europeia concluiu o esboço de sua política comum de defesa.

Do antigo protagonismo americano, resta apenas a questão nuclear coreana, uma fonte de sucessivos constrangimentos para a Casa Branca. Um quarto de século atrás, na hora do desfalecimento da URSS, os EUA despontaram como hiperpotência global. Logo, o triunfalismo cedeu à realidade e o estatuto americano foi rebaixado em um grau, para "potência indispensável", no rótulo cunhado por Madeleine Albright, secretária de Estado de Clinton.

Agora, antes do primeiro aniversário de seu governo, Trump encolhe os EUA à condição de potência dispensável. "America First", o lema do nacionalismo isolacionista, degrada-se a "America Last", sua mais precisa tradução.

O célere declínio da influência americana assinala o epílogo de uma época. A "Pax Americana" nunca foi perfeita e bela, como asseguram-nos incontáveis arautos do excepcionalismo americano. Mas, sem os EUA, a ordem mundial tende a premiar o autoritarismo, em prejuízo da democracia, e o capitalismo de estado, em detrimento da economia de mercado.

A retirada torna o mundo mais instável e violento. A embaixada em Jerusalém não será um "esplêndido tributo à paz", nas palavras de Trump, mas um monumento aos nacionalismos, ao populismo e ao terceiro-mundismo.

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