Beckenbauer, Baresi, Boniek: pai registra filhos em homenagem a craques e monta time dos sonhos

Seu Abrante Gonçalves acompanhou as Copas de 70, 74 e 78 pelo rádio. Ele teve seis filhos e todos receberam nomes e sobrenomes de estrelas do futebol mundial

Publicado em: 03 de Junho de 2020
Foto Por: Arquivo pessoal/ Divulgação
Autor: Edson Reis, Palmas, TO
Fonte: Globo Esporte
Seu Abrante e Mazurquiane, Bornieque (de azul no sofá), Barezi (de amarelo), Bequembauer (de preto) e Mazurquievcz (de azul)

O ano era 1970, o México sediava a Copa do Mundo de Futebol, e em campo nomes como Franz Beckenbauer (seleção da Alemanha), Ladislao Mazurkiewicz (goleiro do Uruguai), entre outros. No Brasil, lá no interior de Goiás, Abrante Gonçalves Pacheco, um jovem apaixonado por futebol, não desligava o rádio de pilha. Com uma folha de caderno e uma caneta em mãos, ele ficava atento aos nomes que eram falados naquela edição do mundial. O mesmo se repetiu nas Copas de 1974 (sede Alemanha Ocidental) e 1978 (sede Argentina).

 

Os nomes ficaram escritos em um papel. No primeiro casamento, Abrante Gonçalves teve dois filhos, foi atrás da folha de caderno e resolveu homenagear dois nomes da lista: Ernesto Mastrángelo (atacante que atuou na seleção Argentina) e o arqueiro uruguaio Ladislao Mazurkiewicz. Nos registros ficaram: Mazurquievcz Oliveiros Breslei Pacheco e Mastrangelo Abrante Uazambeque Pacheco. 

 

"Eu sou pai dessa seleção de estrangeiros que tá no Brasil. Eu vinha copiando, tinha uma folha de caderno de nomes estrangeiros, aí eu fui selecionando. Mas essa geração é toda flamenguista", Abrante Gonçalves.

 

Pouco tempo depois ele se separou e mudou para o interior do Pará. Na época, Abrante Gonçalves trabalhava cuidando de fazendas e não tinha um endereço fixo. No segundo casamento, mais quatro filhos, sendo três homens e uma mulher. Os filhos do segundo relacionamento tiveram nomes e sobrenomes de outros craques do passado.

 

Desta vez foram homenageados: Boniek (atuou pela seleção da Polônia), Paul Breitner (ex-jogador alemão), Franz Beckenbauer, Tarantini (ex-jogador argentino) e Baresi (ex-jogador italiano).

 

O curioso nesta segunda parte dos registros é que o pai apaixonado por futebol voltou a homenagear o goleiro Ladislao Mazurkiewicz. Mas com adaptação para filha: Mazurquiane Helena Steler Pacheco. Os outros três ficaram assim: Bornieque Brister Marcovit Pacheco, Bequembauer Samaronio Braistner Pacheco e Barezi Samambrique Tarantine Pacheco.

Bequembauer (de preto), Mastrangelo (laranja) e Barezi (de branco) — Foto: Arquivo pessoal/ Divulgação

Do Pará para o interior do recém-criado estado do Tocantins. E foi em um cartório do município de Peixe (TO), que Abrante Gonçalves enfrentou dificuldades para registrar os outros filhos.

 

- Com os cartórios eu encontrei problemas, mas foi mais aqui no Tocantins. Os que foram registrados no Goiás não tiveram problema. Aqui teve uma ‘barreirazinha’. A dona do cartório não queria registrar Mazurquiane [filha com nome adaptado em referência a Ladislao Mazurkiewicz]. A filha dela já tinha feito o registro de Barezi [referente ao ex-jogador italiano Baresi], aí eu disse: “Não, já tem um estrangeiro aí. Mazurquiane vai ser registrada de Mazurquiane”. Aí registrei – explicou Abrante.

Barezi foi registrado por uma jovem que estava iniciando na atividade, porém, não foi tão fácil. A jovem era Luciene Luiza De Paula Dias, filha da dona do cartório. À época, chegou a fazer vários questionamentos para registrar Barezi Samambrique Tarantine Pacheco.

 

- Quando eu comecei a trabalhar no cartório, eu era muito nova, tinha de 12 para 13 anos. Aí passou uns anos chega esse morador [Abrante], aí peguei os documentos dele e vi o nome ‘Abrante Pacheco’. Aí eu perguntei: “Como que é o nome dos filhos do senhor?” E ele respondeu: “Barezi Samambrique Tarantine Pacheco”. Aí eu falei: “Uai, mas o senhor não tem esses sobrenomes, se o sobrenome do senhor é só Pacheco. Que tanto de nome é esse desse menino?” Ele disse: “Não, isso não é sobrenome não, meu sobrenome é só Pacheco”.

 

- Questionei: “Por que o nome desse menino é desse tamanho? ”. Abrante respondeu: “Não, isso é nome de jogadores, que eu juntei e coloco em cada filho meu”. Eu disse: “Moço, eu não vou fazer não. Existe mesmo esses jogadores? ”. Ele: “Existe!”. Aí, ele chegou e queria o nome nos filhos dele, naquela época não entendia bem sobre a lei, hoje a gente já não coloca, quando chega lá querendo registrar com nome de Mel, por exemplo, não fazemos. Aí registramos o Barezi Samambrique Tarantine Pacheco. Eu ainda falava, seu Abrante:

 

“Esses meninos quando crescerem vão ser tão revoltados”. Eu acredito que registrei uns três desses meninos ou os quatro – disse. O cartório pertencia ao avô de Luciene, atualmente ela é titular de registro civil de Vila Quixaba, município de Peixe.

 

Barezi Samambrique Tarantine Pacheco, está com 29 anos, e sabe tudo sobre a história do ex-jogador italiano Baresi, que defendeu em toda carreira apenas o Milan e a seleção italiana. Ele contou que pesquisou tudo sobre o nome e descobriu, que além de Baresi, carregava no sobrenome outro ex-jogador: Tarantini (ex-jogador argentino), com atuações por Boca Juniors, River e seleção Argentina.

 

- Foi o zagueiro [Baresi] que parou o Romário na Copa de 1994, mas perdeu o pênalti na decisão. Muito orgulho. Para gente [irmãos] sempre foi normal os nomes. Nunca achamos estranho e nem nada do tipo. As pessoas achavam esquisito, porém, para gente normal.

Para o futuro ele já avisou que se a esposa permitir pode pintar um Ibrahimovic na família.

 

Bequembauer Samaronio Braistner Pacheco, está com 33 anos. Além do nome de um dos grandes jogadores do futebol mundial Franz Beckenbauer, ele tem ainda no sobrenome, outro alemão: Paul Breitner. Bequembauer descobriu a origem dos nomes por volta dos 14 anos.

 

- Pensei era um jogador famoso [Franz Beckenbauer], mas ele é muito mais que isso, é unanimidade em qualquer seleção de todos os tempos. Na escola, às vezes era um pouco complicado. Mas foi muito bom, sempre tinha uma piadinha, apelidos. Tenho o maior orgulho do meu nome - afirmou.

 

Para seu Abrante, o tempo passou, os filhos cresceram e ele hoje é um senhor de 68 anos. Continua em Peixe, cidade que fica a 285 km de Palmas. Os quatro filhos do segundo casamento moram na cidade, os dois do outro relacionamento moram fora do Tocantins. O município virou endereço fixo, e ele passou a trabalhar de vigilante noturno. Para manter a tradição, a família fez uma nova homenagem: David Luiz, em referência ao zagueiro do Arsenal.

- Filho da Mazurquiane, colocou o nome de David Luiz para seguir a tradição - concluiu seu Abrante.

 

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