Enfermeira que atuou no Hospital de Campanha do Ibirapuera analisa rotina em dois empregos: aprendizado e experiência

Rayssa Martins trabalhou durante um mês no hospital de campanha para pacientes com Covid-19 e conciliava com atendimento no PS do Hospital Municipal Balneário São José, na Zona Sul da capital paulista.

Publicado em: 22 de Junho de 2020
Foto Por: Arquivo Pessoal
Autor: Gabriela Gonçalves, G1 SP — São Paulo
Fonte: G1 SP
Enfermeira Rayssa Martins, de São Paulo.

Após completar um mês de trabalho como supervisora da enfermagem do Hospital de Campanha do Ibirapuera, na Zona Sul da cidade de São Paulo, Rayssa Martins, de 29 anos, pediu demissão e segue no atendimento do Pronto Socorro Municipal Balneário São José, também na Zona Sul.

 

"Tem hora que você percebe que mochilinha está um pouco pesada, mas tudo é aprendizado e experiência. A troca é muito importante e eu fui muito acolhida", garante.

 

Rayssa já trabalhava no PS quando começou no hospital de campanha, em 1º de maio. Quando a enfermeira falou com o G1 em maio, os horários de plantões coincidiam e ela trabalhava 12 horas em um, 12 horas em outro e tinha 24 horas para descansar. Com uma mudança em uma das escalas, ela não conseguiu conciliar os horários e precisou escolher entre os empregos.

 

"Era uma rotina muito cansativa, mas eu sinto falta dessa rotina, porque eram duas propostas diferentes: num emprego eu seria assistencial e no outro supervisão. Eu vivia os dois mundos na mesma fase: o início e o desfecho da doença. Era uma experiência completa e eu estou sentindo falta de viver plenamente a minha profissão durante a pandemia."

 

Atualmente, a enfermeira tem a escala de 12x36 -- trabalha 12 horas seguidas e folga as próximas 36 horas. Lidar com tanto tempo livre foi um susto no início. "Parece que dormir se tornou a maior emoção da vida. Nos primeiros dias, parecia que eu nunca tinha dormido na minha vida. Foi difícil."

 

Além do descanso, após quatro meses longe da família, a enfermeira conseguiu ver a mãe em Santos, no litoral Sul do estado.

 

"Ela não esperava, fui de surpresa. Cheguei de noite e ela já estava deitada. Quando me viu, ela não sabia se estava sonhando. Foi engraçado. Não pudemos nos abraçar, foi rápido, uma noite só, mas a gente pôde sentar, comer junto, conversar. Ela precisava ver que não estava faltando nenhum pedaço em mim", brinca.

 

Mudanças no PS

 

No último mês, Rayssa percebeu que a procura pelo PS mudou. "São dois cenários em paralelo: aumentou queixas por assuntos diversos e aumentou também o número de quadros respiratórios graves."

 

Segundo a enfermeira, pacientes com sintomas diferentes da Covid-19 se tornaram mais frequentes no PS, enquanto pacientes com sintomas do novo coronavírus chegavam ao hospital com o quadro mais grave.

 

"As pessoas que precisavam não queriam ir ao hospital, tinham medo e quando foram, já estavam em estado avançado. E quando havia piora do quadro e precisava de transferência [para hospitais de referência], muitos pacientes não queriam ir. Para eles, como era suspeita de Covid-19, se eles fossem transferidos, poderiam pegar a doença. Muitos não entendiam a necessidade do suporte clínico."

 

Rayssa conta que, em muitos casos, ela precisou explicar ao paciente que ele seria bem tratado nos outros hospitais e que ele precisava de mais estrutura para dar sequência ao tratamento. "A preocupação e o medo fizeram com que pessoas negassem atendimento, o que gerou todo um processo de convencimento."

 

Flexibilização da quarentena

 

Rayssa se mostra preocupada com o início da flexibilização em São Paulo. Para ela, a reabertura "causa uma falsa sensação de segurança".

 

"Eu só não consigo entrar nesse pensamento de achar que tudo está bem porque eu vivo a prática. A vida não voltou ao normal e eu me preocupo muito com o ‘boom’ na Saúde. Onde vamos acomodar todas essas pessoas doentes ao mesmo tempo?"

 

A enfermeira conta que espera que as pessoas se tornem mais empáticas e diferentes, com novos hábitos, "olhando mais para si e para o outro com mais cuidado".

 

"Nesse período, a nossa atitude impacta diretamente no outro. A conta não pesa só pra quem não se preocupa ou para quem não respeita [o isolamento]. O saldo é pra todo mundo, todo mundo é afetado. Eu estou bem mais preocupada do que antes. Vai demorar uns meses para estarmos seguros e podermos respirar aliviados. Eu não lido com analise para fazer previsão, mas a sensação que eu tenho com o desenrolar do processo é que vai demorar [para passarmos pela pandemia]."

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