Segunda - Feira,
15 de Agosto de 2022

MST e agroecologia: um dia na festa junina mais deprimente do Brasil. Ou melhor, do mundo

Autor: Paulo Polzonoff Jr.

Fonte: Gazeta do Povo

Publicado em 24 de Junho de 2022 (Atualizado Há 2 meses atrás)

Legenda: Apesar da aura de pureza ideológica, o MST se tornou apenas uma indústria que apela ao “consumismo comunista” dos simpatizantes.

Autor da Foto: Paulo Polzonoff Jr.

Acordei mais cedo do que o de costume. Tomei um café reforçado. À mesa, o melhor do nosso agronegócio: café do cerrado de Minas Gerais, leite e manteiga de vacas bem alimentadas com o milho do Centro Oeste, pão feito com trigo gaúcho, açúcar das usinas do interior de São Paulo, de onde também vem o suco de laranja. Devida e fartamente alimentado graças à malvadeza dos agricultores e pecuaristas, lá vou eu para a 19ª Jornada de Agroecologia, realizada pela Universidade Federal do Paraná, com apoio ostensivo, mas informal, do MST.

Às 8h30 de uma quinta-feira (23) de sol, me credencio e recebo um kit (quem paga por tudo isso?) contendo uma pasta de elástico, um bloco de anotações, uma caneta, um jornalzinho, adesivos, uma folha com a programação do evento e uma cartilha cujo subtítulo é uma fartura de pontos de exclamação: “Terra Livre de Transgênicos e Sem Agrotóxicos! Cuidando da Terra, Cultivando Biodiversidade e Colhendo Soberania Alimentar! Construindo o Projeto Popular para a Agricultura!”. Na contracapa, há um “poema” de um professor de geografia, no qual se lê:

No Paraná, qual no Brasil
o latifúndio reproduziu
sua lógica infecunda, mas batida,
de produzir commodities e não comida.

Fico em transe por um momento, como se os versos ignorantes, incapazes de perceber a relação entre commodities e fartura, fossem um sinal de que eu estava prestes a entrar numa bolha. Uma bolha diferente da minha. Uma bolha vermelha. Onde a abundância de comida é prejudicial, onde alimentos geneticamente modificados são um palavrão, onde o capitalismo é inimigo e onde Holodomor e Lysenko são apenas historinhas de bicho-papão inventados por uma sociedade colonizadora, racista, machista e transfóbica.

Às 9h, sou obrigado a escolher entre dois eventos imperdíveis: o seminário “Agroecologia e Reforma Agrária Popular: um projeto da Jornada de Agroecologia” ou o seminário “Plenária Educação do e no Campo: Histórias de lutas e reivindicações do presente. Direito nosso Dever do Estado”. Opto pelo primeiro, mas, como me perco no labirinto da universidade, acabo entrando no auditório onde será realizado o segundo.

Sento-me atrás de uma professora do Colégio Estadual Paulo Leminski. Ela levou os alunos para assistirem ao seminário e sentirem um pouquinho do ambiente universitário que os aguarda – se eles passarem no vestibular. O que não deve ser tão difícil assim. É o que concluo depois de ler bilhetinhos de autoajuda espalhados pelos corredores. Muitos são os erros de português e os clichês, sem falar no tom paulocoelhiano/harrypotteriano dos textos. “O mundo virou um grande jardim de infância”, penso. Guarde esse pensamento. Ele será importante no final do texto.

“Não desista, todas as situações que passamos, nos fazem crescer!!!”, lê-se num desses bilhetes. A letra manuscrita infantil quase ofusca o erro de regência e pontuação. “Você não é a sua neta”, lê-se em outro, enigmático. Deve ser um meme que estou velho demais para entender. “Levanta a cabeça, princesa, senão a coroa cai”, lê-se em outro. Aí, como que por milagre, encontro uma frase de um autor conhecido. “Que a tua vida não seja uma vida estéril. Sê útil”, escreveu alguém num papelzinho cor de rosa e ousando dar o devido crédito a São Josemaria Escrivá. A frase parece até irônica num evento do MST.

Mas agora me deixe entrar no auditório que o seminário vai começar. Está lá o mestre de cerimônias apresentando as pessoas que comporão a plenária.

Não soja. Alimentos de verdade

Vocês vão me perdoar, mas perdi os nomes. Só sei que a mesa era composta por uma professora da UFPR, uma representante do Sindicato dos Professores do PR (professora de história), um defensor público, um representante do MST, um representante da ONG Assesoar e uma pessoa que se definia como travesti-quilombola. Todos foram entusiasmadamente aplaudidos pelos estudantes.

A professora da UFPR começou dando bom dia a “todos, todas e todes”. E neste momento percebi que estava no meio de uma grande caricatura. O problema é que essa caricatura se assemelha muito ao desenho que mentalmente componho da Venezuela e Cuba atuais, da Albânia da década de 1950, da China da década de 1960 e da União Soviética da década de 1930. Exagero? Deixe para me condenar ou me inocentar depois que eu contar para você o que foi dito nessa tal de plenária (não confundir com planária).

Depois do “todos, todas e todes”, a professora pediu desculpas e disse que tinha de estar presente a outro evento no mesmo horário. Antes de sair, contudo, ela teve tempo para falar na Universidade como um “latifúndio do saber” e na importância de “neste momento de resistência, reescrever a própria história”. E por uns trinta segundos ela falou na “importância de ocupar espaços”.

Por um instante, dou razão à douta acadêmica esquerdista. Penso no grande fracasso da direita brasileira, incapaz de ocupar espaços mesmo sob um governo teoricamente liberal e conservador. E, já que estamos falando do uso da terra, mesmo num país onde o agronegócio é tão rico. Anoto a ideia para um texto futuro, sobre a educação marxista a que estão submetidos os herdeiros do agronegócio.

Quando volto a prestar atenção à plenária (que é basicamente uma sequência de minimonólogos cheios de clichês), quem está falando é a representante do APP Sindicato. Ela faz críticas, pasmem!, à volta das aulas presenciais, o que teria sido feito “para atender aos interesses do setor privado”. Daí explica que o sindicato é classista. Classista ou fascista? Desculpe, a acústica do auditório não é muito boa. E, com um sorriso que vou adjetivar como macabro, mas meu editor pode apagar, se quiser, fez menção a “tempos de esperança que se seguirão à resistência atual”.

O microfone troca de mãos. Quem tem a palavra agora é o representante da ONG. No site da Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural – ASSESOAR, descobre-se rapidamente que a instituição “conta com o apoio financeiro do Pão para o Mundo-PPM/Alemanha, e do Comitê Católico contra a Fome e pelo Desenvolvimento-CCFD/França”. Alemanha e França não são dois países que vivem encrencando com o nosso agronegócio? Curioso.

Mais exaltado do que as professoras, o sujeito começou dizendo que eles não estão ali “para discutir soja. E sim alimentos de verdade, que vão para a mesa das pessoas”. Imediatamente me lembro do meu café da manhã e de todas as coisas que ocupam minha geladeira e despensa. Difícil encontrar um alimento ali que não contenha, direta ou indiretamente, soja em sua composição. Tenho vontade de levantar a mão e perguntar a ele o preço do óleo de peroba - que provavelmente também leva soja na fórmula.

O tom das críticas ao governo sobe. E aqui um dado interessante: todos os plenaristas evitam mencionar os nomes do presidente Jair Bolsonaro e do governador Ratinho Jr. Não reconhecer a mera existência do adversário é tática antiga da extrema-esquerda. Mas, quando usada assim, de forma orquestrada, chama atenção pelo ridículo. Aí ele fala que os brasileiros só morreram de Covid porque não houve investimento em vacinas nacionais e eu tenho vontade de gritar “socorro!”.

Jones do MST

Estou prestes a amaldiçoar meu editor, Jones Rossi, quando percebo uma oportunidade de me vingar dele. Porque o representante do MST também se chama Jones. Pronto. Me sinto vingado. O Jones-do-MST começa citando um Paulo Freire que parece soluçar, tantas são as vírgulas, e se dirigindo “aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam”.

Não há esfarrapados no auditório. E tenho dúvidas se alguém ali se descobriu no mundo real recentemente. Exceto pelos estudantes vítimas da pedagogia sádica da professora do ensino médio, minha impressão é a de que todos naquele auditório vivem um pesadelo fabricado, para o qual a única esperança é a utopia trágica do comunismo. A realidade é o que o MST lhes diz que é a realidade.

Jones, o do MST, fala na importância da “pedagogia socialista” e se orgulha de fazer parte de uma organização que “construiu uma pedagogia própria”. A lenga-lenga se arrasta e eu descubro que doutrinação mudou de nome e hoje se chama (anote aí) “pedagogia da emancipação humana”. Ah, esqueci de dizer que o Jones, apesar de ser o representante do MST, não usa vermelho e, se me permitem o momento crítico-de-moda, é o mais bem arrumado de todos. Se me apontassem na rua, diria que era um startupeiro ou até um advogado de uma banca menor. Nunca um sem-terra.

O microfone agora está nas mãos da pessoa trans. Cujo nome não anotei porque estava ocupado em não deixar transparecer minha surpresa (?) quando, depois de também dar bom dia a “todos, todas e todes”, ele ergueu a voz para reafirmar: “sou trans; gosto de deixar isso escurecido”. Depois, ele ensinou a todos os presentes que não se deve usar a palavra “escravo”. Por quê? Para não naturalizar a escravidão. (Mas não deu alternativa). Em seguida, ele fez críticas ao agronegócio, à monocultura, ao latifúndio e ao racismo estrutural. Ele citou Abdias do Nascimento, Djamila Ribeiro e Paulo Freire. Por fim, falando novamente sobre racismo, ele disse que “nós [os negros] somos maioria. Isso precisa ficar bem escurecido”.

O último a falar foi o defensor público. Um jovem que, à primeira vista, confundi com Jean Wyllys. Quase fui lá pedir autógrafo e fazer selfie, acredita? Ele começou pedindo desculpas por representar o Estado. E, como os demais, se pôs a desfiar um rosário de lugares-comuns comunistas. Me levantei.

Boné do Fidel 

E saí para aproveitar um pouco do que parecia uma festa junina de pessoas profundamente infelizes, mas cheias de consciência social. Com uma mocinha muito nervosa, aprendi a fazer iscas para ter em casa uma colmeia de abelhas jataí. Ao meu redor, algumas pessoas se entretinham picotando garrafas plásticas. Parecia até o programa do Daniel Azulay. Pela segunda vez em poucas horas, pensei que o mundo tinha se transformado num grande jardim de infância. Não seria a última.

Por falar em abelhas, de uma senhora com ar desconfiado recebi amostras de cinco méis (ou meles) diferentes, enquanto ouvia uma palestrinha sobre a extinção iminente dos insetos. “Temos que lutar também contra nossa extinção”, disse ela, os olhos fixos no boné de Fidel Castro que me denunciava como um estranho naquele lugar. Ou talvez eu estivesse ficando paranoico, sei lá. Até quis comprar um mel de abelha guaraipo. Mas o preço… Deve ser culpa do Bolsonaro também.

Aliás, a “jornada agroecológica” nada mais é do que um grande shopping de produtos agrícolas com selo de consciência social e política. E com o mesmo quê de primitivismo que deve ter encantado bolcheviques e maoístas, a ponto de fazê-los provocar duas das maiores fomes do século XX. Vale destacar, ainda, o caráter nativista-nacionalista (que chega às raias da velha doutrina integralista) no papo dos comerciantes. Em todas as barraquinhas, vi o mito do bom selvagem agregando valor a produtos triviais. Inclusive (e sobretudo) nas que vendiam cerveja e cachaça com a imagem de Lula no rótulo (ver galeria de fotos abaixo).

Palhaçada

Ouço música (embora “música” seja uma palavra forte demais para o que ouço) e sigo para uma tenda cheia de crianças. Um cantor inventa uma melodia pobre para dizer que veneno é ruim e as crianças repetem: “Veneno é ruim!”. Daí as crianças são ensinadas a usar terra para fazer uma “bomba de sementes”. Eu disse bomba? Perdão. Alguém ensina que “bomba” tem um caráter muito pejorativo, associado à guerra, e que por isso as crianças fariam “bolas da vida”. Óin.

Crianças de não mais de quatro anos dançam ao som de slogans contra o agronegócio. Uma delas usa a camiseta “Lute como uma garota”. Por todo o arraiá comunista, aliás, há crianças aprendendo que o agronegócio é mau e que o MST é bom. Que alimentos transgênicos são bobos, feios e caras-de-mamão, enquanto os alimentos orgânicos, por mais mirradinhos que pareçam, acabarão com a fome no mundo.

Deixo as elucubrações de lado e me lembro que estou a trabalho. Corro assistir a uma “roda de conversa” que não passa de uma pregação.. O título é “Transgênicos: como se livrar dessa praga?”. Transgênicos, hein! Se você ler errado é capaz de o STF te prender. Uma vez lá, não ouço nada de novo. Transgênicos são ruins, agrotóxicos são ruins, desmonte das políticas públicas, Monsanto, agronegócio, latifúndio. O palestrante, então, convida os presentes a provarem dos bolos e dos cafés “sem produtos químicos”. Provo uma torta salgada - R$5 um pedacinho de nada. A torta tem o mesmo gosto de qualquer torta salgada que já comi. Mas que outros degustam como se fosse maná esquerdista.

Enquanto decido se continuo enfrentando o sol do veranico curitibano a fim de participar do lançamento do livro “LGBT Sem Terra: rompendo cercas e tecendo a liberdade”, me sento à sombra para assistir ao espetáculo das palhaças Filhas da Fruta (!). Primeiro elas cantam uma musiquinha que conclama a plateia sonolenta a adubar um mundo de b***a. Coisa fina. Depois vêm as piadas. “O que um tomate gaúcho falou para outro tomate gaúcho?”, pergunta uma delas. “Tó, mate”, responde a outra. Rio porque meu senso de humor é descalibrado. A palhaçada continua e, pela terceira vez, penso que o mundo virou um grande jardim de infância.

Jardim de Infância

Estou quase indo embora. Com o coração partido por não poder assistir à aula “Crise do Capitalismo atual e a necessidade de um novo modelo econômico com Soberania Nacional”, com o terraplanista econômico, professor da Unicamp e futuro ministro da economia (toc, toc, toc) Márcio Pochmann. Antes, porém, tenho tempo de ouvir uma das palhaças “filhas da fruta” dizendo que estava sendo batizada ao receber um boné do MST.

A imagem dessa heresia funciona como uma revelação. Só então entendo o que eu mesmo estava querendo dizer ao pensar e repensar que vivemos num grande jardim de infância. Crianças são utópicas e tirânicas. As mais birrentas querem tudo para hoje, agora, já! E não hesitam em transformar a vida dos pais (ou babás) num inferno para verem satisfeitas suas vontades. Não suas necessidades, e sim suas vontades.

“De assentamento tem poucos. A maioria é pessoal da faculdade”, observa alguém ao meu lado. De fato, o que menos se vê na "festa" é gente com a mão calejada. Passa por mim uma indiazinha com uma camiseta da Lava Jato e eu saio atrás para fotografá-la e ninguém dizer que estou inventando. Uma dupla desafinada canta “Tocando em Frente”, de Renato Teixeira, sem desgrudar do copinho de cachaça.

Cansado de viver naquela versão condensada do inferno, ligo para minha mulher e faço um draminha básico: “Estamos ferrados. Vamos mesmo virar a Venezuela. É melhor começar a estocar os víveres!”. Ela, acostumada a meus exageros, primeiro me pergunta se estou com fome (estou) e depois diz que não, não vamos virar a Venezuela, isso daí é só uma fatia minúscula da população, um bando de radicais, etc, etc.

Mais calmo, mas ainda com fome, cogito comer uma vaca atolada de aparência nada boa quando sou interpelado por um jornalista militante, conhecido de tempos nem tão velhos assim e que, se duvidar, me considera até nazista. Sou simpático. Puxo conversa. Comento que estou com o estômago roncando, preciso comer alguma coisa. Ao que ele diz: “Sai daqui! Vá comer no Outback. É mais a tua cara”. Sabe que até não é má ideia? Penso, mas não digo. E é assim, com a burguesia esfregada na minha cara, que deixo a 19ª Jornada Agroecológica, também conhecida como “a feira junina mais deprimente do Brasil”. Ou melhor, do mundo.

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