Sábado,
18 de Setembro de 2021

Recuperação pra quem? Com economia a passos lentos, trabalhadores do turismo sofrem para retomar renda

Setor de turismo encerrou o primeiro semestre do ano operando 29,5% abaixo do patamar pré-pandemia e acumulando 30,9 mil empregos perdidos em 12 meses.

Autor: Daniel Silveira, G1 — Rio de Janeiro

Fonte: G1 — Rio de Janeiro

Publicado em 01 de Setembro de 2021 (Atualizado Há 3 semanas atrás)

Legenda: Piscina do Hostel Quintal do Maracanã, em registro anterior à pandemia do coronavírus.

Autor da Foto: Arquivo Pessoal

O 2º trimestre teve resultados negativos para a maior parte dos setores da economia brasileira, segundo dados divulgados nesta quarta-feira (1º) pelo IBGE. Mas, enquanto os serviços mostraram uma retomada tímida, de 0,7% frente aos três meses anteriores, o turismo ainda sofre para retomar o patamar pré-pandemia.

Reflexo disso são os milhares de profissionais do setor à míngua, já que ainda não recuperaram o trabalho, nem a renda, perdidos com a pandemia.

É o caso de dois trabalhadores do segmento turístico no Rio de Janeiro ouvidos pelo G1 – uma empresária do ramo de hotelaria e um guia de turismo. Ambos se viram completamente sem renda logo que começou a pandemia e, ao final do segundo trimestre de 2021 tinham recuperado apenas cerca de 10% da renda que tinham antes.

Conheça a história deles logo abaixo.

Entre os dados antecedentes que enfatizam a lenta retomada do turismo ainda no 2º trimestre deste ano, estão:

  • 30,9 mil vagas de trabalho relacionadas ao turismo foram fechadas em 12 meses;

  • 91% das empresas ligadas ao setor relataram perda de faturamento;

  • 78% das operadoras de turismo tiveram faturamento semestral inferior a 2019;

  • Turismo corporativo recuperou apenas 1/4 do faturamento obtido antes da pandemia;

  • Demanda por viagens rodoviárias e aéreas tiveram queda respectiva de 61,6% e 41,7%.

'Recuperação para quem?'

A empresária Daniela Falcão, 58 anos, é uma das milhares de profissionais do ramo turístico que não sentiram o avanço do PIB. "Recuperação para quem", questiona ela, que diz ter conseguido retomado, até junho deste ano, “10%, se muito” da renda mensal que tinha antes do início da crise sanitária.

Ela era dona de um hostel localizado próximo ao Estádio do Maracanã, um dos cartões postais do Rio de Janeiro. Decidiu fechar as portas logo depois de declarada a pandemia, paralisando as atividades turísticas em todo o mundo.

“Eu perdi tudo, fui a zero. Além de ficar sem negócio, fiquei sem teto, porque eu morava lá. Parece que tropecei na beira de um poço, caí nele e não parei de afundar. A impressão era que o poço não acabava", conta a empresária.

Daniela possuía o hostel havia três anos. Vendeu o apartamento onde morava para comprar o CNPJ e o mobiliário do proprietário anterior. O imóvel era alugado – uma casa com amplo quintal, piscina e 10 quartos – e ela mantinha quatro funcionários.

“Graças a Deus tomei a decisão de fechar logo que começou a pandemia, senão hoje eu estaria numa situação muito pior”, afirma.

Em 2019, Daniela havia feito obras de melhoria no hostel. Ela conta que o ano havia sido bom para o negócio e 2020 começou com a promessa de ser ainda melhor. Diversos contratos de hospedagens já haviam sido fechados para o ano e muitas parcerias foram firmadas para eventos no local. “De repente, a gente não podia receber mais ninguém lá dentro e tudo foi cancelado”.

“O pior impacto foi ter que devolver dinheiro de tudo que eu já tinha vendido. Chegou um momento que eu não tinha mais caixa para devolver mais dinheiro para ninguém. Eu fiquei sem lastro, sem capital, sem renda e sem casa”, destaca a empresária.

A solução imediata para moradia foi se unir ao ex-marido, com quem mantém forte relação de amizade. Juntos, alugaram um apartamento “muito pequeno” na Zona Norte da cidade. Todavia, tiveram dificuldade de arcar com alguns alugueis, precisaram negociar a dívida e buscaram novo imóvel, dessa vez na Zona Oeste da cidade, para onde se mudam agora em setembro.

‘Quando o Brasil está bem, você se vira’

Depois de fechar o hostel, Daniela ficou “com renda zero”. A primeira saída foi retomar um negócio antigo, há anos interrompido – a produção caseira de massas e molhos italianos. Mas a renda, conta, garantia “apenas o básico para comer”.

Profissional do ramo de marketing, Daniela diz ter várias habilidades e disposição para empreender. Mas a crise generalizada provocada pela pandemia limitava sua possibilidade de atuação e, sobretudo, de gerar renda.

“Quando o Brasil está bem, você se vira. Mas, o problema é que não foi só o Brasil, mas o mundo parou inteiro. Ficou muito difícil usar as ferramentas que tenho. Eu não tinha mais faculdade para dar aula, não tinha empresa contratando palestrantes. Acho que nunca comi tanta pizza feita em casa, mas foi o segmento que estava mais ou menos funcionando”, enfatizou.

No final de junho deste ano, Daniela começou a empreender um novo negócio. Abriu a Macopini, empresa que presta serviços residenciais. “São aqueles serviços que você não gosta, ou não tem tempo de fazer na sua casa”, define. Ela oferece desde cuidado com pets e plantas à gerência de obras ou mudanças. Mas, por se tratar de um “serviço premium” num contexto de crise, a demanda é tímida, segundo ela.

Uma nova porta se abriu somente agora no segundo semestre. Ela foi convidada para gerenciar um hostel em Copacabana, na Zona Sul carioca, a partir de 15 de setembro. Tem esperanças de que até o fim do ano o turismo volte a se aquecer na cidade para, em breve, retomar o projeto de uma agência de viagens que pensava tocar juntamente ao antigo hostel.

“De longe, a pandemia é a pior crise que já enfrentei. Sempre tive várias fontes de renda em paralelo à minha atividade principal, mas dessa vez ficou difícil empreendê-las”, reforça.

Baque na hotelaria carioca

De acordo com a Hotéis Rio, entidade que representa a rede hoteleira carioca, oito estabelecimentos, entre hotéis e albergues, fecharam as portas em definitivo na capital fluminense após a pandemia. Outros 12 seguem fechados temporariamente, em obras ou esperando momento oportuno para reabrir.

A entidade destacou, ainda, que a retomada da ocupação hoteleira no Rio “começou timidamente em junho, mas ganhou força a partir de agosto”.

“A recuperação total pode demorar até 4 anos e depende diretamente da retomada da economia, do calendário de eventos e de ações promocionais nos principais destinos emissores nacionais e internacionais”, destacou a Hotéis Rio.

Mais de um ano sem renda

No dia 13 de março do ano passado o guia de turismo Adalberto Roseira, 26 anos, o Beto, acompanhou o último grupo de turistas em viagem por Cabo Frio, na Região dos Lagos. Desde então, ficou completamente sem renda por mais de um ano.

Foi somente no final de maio deste ano que conseguiu voltar a trabalhar, diante da parcial retomada da atividade turística na região. Todavia, segue sem poder contribuir com os gastos na casa dos avós, com quem mora.

“Antes da pandemia eu atendia grupos de turistas pelo menos duas vezes por semana. Todo final de semana tinha trabalho de guia e eu também trabalhava em barcos. Agora, é uma vez por mês e olhe lá”, diz.

Beto conta que faturava, em média, R$ 600 por final de semana, “fora as comissões”, antes da pandemia. A volta dos turistas a partir do segundo trimestre lhe rende pouco mais de 10% daquela renda. “Agora ganho R$ 300 uma vez por mês”, lamenta.

Guia de turismo Adalberto Roseira em registro anterior à pandemia do coronavírus — Foto: Arquivo Pessoal

Questionado, Beto diz que não procurou por trabalho em 2020, pois se viu paralisado, incrédulo com os efeitos provocados pela pandemia no segmento em que, havia pouco, tinha começado a trabalhar.

“Quando fecharam tudo [o acesso de turistas à Região dos Lagos], eu não queria acreditar no que estava acontecendo. Eu tinha acabado de me formar, pegado a minha credencial e começado a trabalhar como guia. Eu cheguei a pensar que era conspiração contra o governo o que estava acontecendo”, relata.

Para se tornar guia, ele fez um curso com duração de um ano e meio graças à uma bolsa de estudos integral oferecida pelo Senac. Frustrado pelo choque provocado pelo colapso no turismo, só conseguiu se movimentar na direção de outra fonte de renda em 2021.

“Eu comecei a trabalhar com entrega de comida por aplicativo, de bicicleta, quando as coisas pareciam começar a se normalizar, depois de março desse ano. Não dava muito dinheiro, mas já era alguma coisa”, diz.

O trabalho como guia segue incerto, diz Beto. Isso porque as cidades turísticas da região seguem com uma série de restrições, inclusive com limitação a 1/3 da entrada de turistas na comparação com o fluxo antes da crise sanitária.

Sua aposta é mudar de área tão logo consiga concluir o curso de técnico de enfermagem iniciado em janeiro deste ano, mas que precisou trancar devido a um problema de saúde que lhe pegou de surpresa em junho. "Sempre foi meu sonho trabalhar com enfermagem. Ainda faltam 15 meses de curso, mas vou conseguir", aposta.

Menos de 30% dos guias retomaram trabalho no RJ

De acordo com o presidente licenciado da Liga Independente dos Guias de Turismo do Rio de Janeiro, Arnaldo Bichucher, até agosto a grande maioria dos guias no estado ainda não havia retomado o trabalho.

Segundo a Liguia, em março do ano passado havia 9 mil guias com cadastro ativo no estado do Rio de Janeiro, com 3,5 mil deles em atividade.

“Ainda não tem nem 30% deles trabalhando atualmente”, disse Buchicher.

Ele destacou que os guias de turismo ficaram sem medida de socorro efetiva por parte do governo. Após mais de um ano sem trabalho e diante das dificuldades de conseguir outra fonte de renda, muitos enfrentam sérias dificuldades financeiras.

“O que a gente tem visto é que além da dificuldade para pagar aluguel e comprar comida, tem muitos casos de pessoas que usavam remédios controlados, não conseguiam mais pagar por eles e agora estão com sérios problemas de saúde”, relata.

Setor mais afetado pela pandemia

O turismo foi o segmento mais afetado pelas medidas de restrição à circulação de pessoas, afetando toda a cadeia de serviços, do transporte à hospedagem, passando pelo funcionamento de atrações turísticas e realização de eventos. Diante desse cenário, o setor fechou 2020 com um tombo de 36,7%.

Ao final do segundo trimestre de 2021 o turismo brasileiro ainda estava distante de recuperar as perdas impostas pela pandemia. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o setor encerrou junho operando 29,5% abaixo do patamar pré-pandemia.

A crise levou ao fechamento de, pelo menos, 30,9 mil vagas de trabalho relacionadas às atividades turísticas, aponta a Confederação Nacional do Comércio (CNC). Este número se refere ao saldo negativo acumulado em 12 meses, até junho deste ano, no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

A CNC destacou que o turismo foi o único conjunto de atividades a registrar, até junho, retração no Caged. Entram a conta os empregos nos segmentos de agência de viagens e operadores turísticos, alojamento e alimentação, transporte rodoviário de passageiros, transporte aéreo de passageiros e atividades culturais e de recreação e lazer.

Uma pesquisa realizada entre junho e julho deste ano pelo Sebrae em parceria com a Associação Brasileira de Agências de Viagens (ABAV) aponta que 91% das empresas ligadas ao setor de turismo no Brasil declararam perda de faturamento no período. Entre as agências de viagem, essa proporção foi de 56%.

Já pesquisa realizada pela Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa) apontou que ao final de junho, 78% das empresas tiveram faturamento semestral inferior ao registrado no primeiro semestre de 2019.

O turismo corporativo também não apresentou recuperação significativa. De acordo com a Associação Brasileira das Agências de Viagens Corporativas (Abracorp), no segundo trimestre deste ano o segmento faturou apenas ¼ (25,4%) do faturamento registrado no mesmo período de 2019.

Outro dado que evidencia a dificuldade de recuperação do turismo é a baixa demanda. Levantamento feito pela Agência Brasileira de Engenharia Turística (Abet) aponta que, no acumulado do segundo trimestre deste ano, houve queda de 61,6% no número de passageiros rodoviários e de 41,7% no de passageiros aéreos na comparação com igual trimestre de 2019.

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