Quarta - Feira,
21 de Abril de 2021

Às vésperas do maior dia da carreira, Abel fica a 90 minutos de já virar lenda no Palmeiras

Abel Ferreira está a 90 minutos de levar o Palmeiras ao bicampeonato da Libertadores

Autor: Felipe Zito e José Edgar de Matos — São Paulo e Rio de Janeiro

Fonte: Globo Esporte

Publicado em 28 de Janeiro de 2021 (Atualizado Há 3 meses atrás)

Legenda: Sem Legenda

Autor da Foto: Marcos Ribolli

Quem é Abel Ferreira? Hoje, dia 28 de janeiro de 2021 e às vésperas de o Palmeiras decidir a Copa Libertadores, a resposta surge com facilidade para quem acompanha futebol. Porém, há um ano, poucas pessoas no Brasil e fora de Portugal apostavam no treinador que pode levar o time alviverde ao bicampeonato do torneio sul-americano e viver o dia mais importante da carreira como esportista no icônico Maracanã.

 

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Abel Ferreira tem 42 anos. Como jogador, fez carreira como um defensor de alto nível em Portugal, mas sem alcançar resultados de excelência como os obtidos com nem três meses de Palmeiras. Afinal, desde quando cruzou o Atlântico, este português impressionou no dia a dia, incorporou a filosofia palmeirense e está a um passo de fazer história para um clube com mais torcedores do que toda a população portuguesa.

 

– É um grande desafio. Prefiro ter toda essa tensão do que estar em casa a ver o jogo sentado. Este era nosso sonho, disputar a final para vencer e sentir todas emoções, controlar e desfrutar dentro das quatro linhas. Chega de estar em casa e ver os outros a disputar a final – declarou na última terça, após o último jogo antes da primeira final de Libertadores da carreira.

 

Abel se cansou de assistir a finais pela TV. Como atleta, venceu duas Taças (2007 e 2008) e duas Supertaças de Portugal (2007 e 2008). Como treinador, ainda busca o primeiro título. A maior oportunidade vem a léguas de distância, no continente invadido há mais de 500 anos pelos seus ancestrais.

 

Cansado de estar em casa, Abel Ferreira cruzou o oceano para viver a história. Afinal, poucos treinadores tiveram a chance de decidir uma Libertadores no Maracanã. Ele, com três meses de Palmeiras, conduziu o time a esse momento. De grande aposta, virou grande realidade – e está a 90 minutos de vencer o Santos e virar lenda.

 

A grande aposta

Duas pessoas apostam desde sempre em Abel Ferreira, em tempos diferentes. Mauricio Galiotte, presidente do Palmeiras, conduziu a negociação pessoalmente e teve apoio da diretoria, como uma alternativa a Miguel Ángel Ramírez, até então favorito a assumir o clube. Hugo Cajuda, agente e agora amigo de Abel, desde Braga confiava no sucesso do treinador.

 

O dirigente do Palmeiras, internamente, não esconde a empolgação pela contratação do português, ainda mais com o início promissor de trabalho e o conhecimento sobre a instituição antes mesmo do desembarque em São Paulo. O empresário, potencializado pelo compatriota, já olha o Brasil como polo para novos negócios.

 

Como qualquer clube grande, o Palmeiras monitora o mercado de jogadores e treinadores, independentemente da situação nas tabelas dos campeonatos. Abel Ferreira, antes mesmo de virar plano e concretizar negócio, era acompanhado há um ano pelo clube alviverde, segundo apurou a reportagem do ge com pessoas próximas ao treinador.

 

O trabalho com recorde de pontos no Braga em 2018 chamava a atenção. Abel estava no PAOK, da Grécia, e era acompanhado com atenção pela direção, especialmente pelo analista de mercado Lucas Oliveira, que possui contatos em Portugal e se aprofundou na avaliação sobre o treinador.

 

Portanto, com a saída de Vanderlei Luxemburgo e a dificuldade na negociação com Ramírez, Abel Ferreira virou aposta pessoal de Mauricio Galiotte e da diretoria alviverde. Poucos dias após a saída de Luxa, o estafe do treinador recebeu o contato do presidente palmeirense para iniciar a negociação. O resto é história (próximo do capítulo da glória).

 

Avanti, Palestra

Desde o primeiro dia no Brasil, Abel Ferreira impressionou quem participa do dia a dia da Academia de Futebol. Seja pelo conhecimento do elenco, até da base, ou pela vontade de conhecer e fazer parte do clube e de sua identidade.

 

Foi assim que o treinador tentou conhecer a sede social palmeirense ao lado da família, acompanhado por dirigentes. O carinho dos torcedores de maneira mais próxima foi uma apresentação do fanatismo palmeirense em uma temporada sem a presença de torcedores na arquibancada.

 

Na chegada, no começo de novembro, João Paulo Sampaio, coordenador da base, e Cícero Souza, gerente de futebol, foram os responsáveis por uma breve apresentação dos processos e estrutura do clube ao treinador e seus auxiliares diretos.

 

A aposta por Abel Ferreira foi justificada por Maurício Galiotte pela necessidade de um novo projeto para o futebol. Diferente dos anteriores, que mesmo com vitórias importantes não tiveram longevidade. Apostando na base e em um estilo mais intenso, com a exigência ofensiva característica de grandes equipes do passado palmeirense.

 

Sem tempo para treinar, Abel Ferreira e sua comissão apostaram no diálogo para se aproximar dos atletas. As frases com peso motivacional, incluindo o famoso "Avanti, Palestra" antes dos jogos foram algumas das armas para resgatar a confiança de um grupo que foi questionado durante a temporada passada.

 

É comum ver o treinador elogiando jogadores. Matías Viña já foi "top top", Gustavo Scarpa foi "oferecido" à Seleção e outros foram destacados publicamente. Com as portas mais abertas para os jovens da base. Classificado para as finais da Libertadores e da Copa do Brasil, é natural falar que tem dado certo até agora.

 

Quem apostou lá atrás

O presidente palmeirense teve um aliado nessa disputa para tirar o português da Grécia e transforma-lo no comandante do Palmeiras à final da Libertadores. No caso, a outra pessoa a apostar fortemente no trabalho de Abel Ferreira: o empresário Hugo Cajuda, agente responsável por ajudar o treinador a escolher vir para o Brasil.

 

Hugo, equipe e o próprio Abel Ferreira analisaram minuciosamente o Palmeiras. Além do elenco, estrutura, estabilidade política, capacidade financeira e história entraram no estudo. A conclusão foi de que valia a pena se arriscar em um território novo.

 

Filho de treinador de futebol e amigo de Abel, Hugo Cajuda jogou na seleção de base de Portugal e passou a ser empresário após ver a carreira ruir em virtude de uma grave lesão. Algo vivido também por Abel Ferreira.

 

Primeiro, foi olheiro e criou relações no futebol. O “olhar viciado” fez o hoje agente se encantar com Abel Ferreira. Bastou uma conversa para as ideias se alinharem lá atrás.

 

O atual comandante do Palmeiras ainda concluía a formação acadêmica de treinador quando conheceu Hugo Cajuda. Os dois se aproximaram com ida de Abel para o Braga, cidade na qual o agente reside. Não demorou para nascer a parceria que hoje resultou na vinda do treinador ao Brasil.

 

O sucesso de Abel Ferreira, que pode conquistar o primeiro título da carreira (e logo o maior troféu da América do Sul) neste sábado, despertou a atenção de Hugo Cajuda para o mercado brasileiro, segundo relatos de pessoas próximas ao treinador palmeirense.

 

Quem cuida da carreira de Abel possui escritórios em Dubai (Emirados Árabes Unidos); Lisboa, Porto e Braga (Portugal); Cali (Colômbia); Canadá e há pouco tempo no Brasil, agora com o técnico do Palmeiras como o grande símbolo de sucesso.

 

Hoje com jogadores, treinadores (Ricardo Sá Pinto na Turquia e Paulo Sousa na seleção da Polônia) e até clubes, a equipe por trás de Abel Ferreira olha para o Brasil como novo mercado. Tudo graças ao desbravador treinador do Palmeiras, quase unanimidade dentro do clube em menos de três meses.

 

Maior dia da carreira?

Abel Ferreira se tornou atleta profissional nos últimos anos da década de 1990. Boas passagens por Penafiel e Vitória de Guimarães levaram-no ao Braga em 2004.

 

No clube em que anos depois iniciou a carreira de treinador de times profissionais, o lateral-direito ganhou espaço e chamou a atenção do Sporting.

 

Em um dos maiores clubes do país, Abel quase completou 200 jogos e teve a carreira interrompida por uma grave lesão no joelho, ocorrida em 2011. Foi quando a carreira acadêmica ganhou mais espaço, e a vida como treinador passou a ser levada como uma possibilidade.

 

No mesmo Sporting, Abel Ferreira começou a trabalhar nas categorias de base e assimilou ensinamentos de Jesualdo Ferreira, ex-técnico do Santos e um mentor do treinador palmeirense. Foram quase quatro anos aprendendo sobre o ofício, evoluindo, crescendo.

 

A grande chance veio no Braga. Primeiro no time B em 2015, depois como interino para, enfim, se tornar treinador profissional. Houve uma campanha histórica, com recorde de pontos em 2018. Porém, ainda faltava algo, a ser buscado com a valorização apresentada pelo PAOK, da Grécia.

 

Quis o destino que a real valorização ocorresse do outro lado do mundo. Na Grécia, Abel Ferreira permaneceu pouco mais de um ano, até o momento em que Hugo Cajuda informou sobre o interesse do Palmeiras. O mercado brasileiro se tornou uma opção considerada com maior atenção após o sucesso de Jorge Jesus no Flamengo.

 

A partir de então, estudos, estudos e mais estudos. Como citado, história, realidade, elenco. Afinal, valeria a pena sair do futebol europeu para o instável mercado sul-americano, no qual a profissão de treinador de futebol se mostra com uma estabilidade frágil?

 

A resposta foi sim, e agora proporciona o maior dia da carreira de Abel: a final da Libertadores contra o Santos, com a possibilidade de levar o Palmeiras ao topo da América do Sul depois de 21 anos de jejum.

 

– Para ganhar títulos temos de estar em clubes como o Palmeiras. Foi esse o grande desafio que aceitei. Senti e sinto que temos todas condições para isso. Foi por isso que atravessei o Atlântico, para eu, juntamente com os jogadores, neste grande clube, trabalhar para chegar em decisões e ganhar – assegura o treinador.

 

– Encaro de forma natural. Por trás é muito trabalho, não esqueço do trajeto desde quando comecei até agora. Há sempre uma primeira vez, temos de aproveitar... Desafiar-nos e dar nosso melhor – finalizou Abel Ferreira, a um passo de se tornar ídolo definitivo de milhões de palmeirenses, número maior até que a população de Portugal.

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