As finanças do Atlético-MG em 2019: presente e futuro estão ameaçados por prejuízos, dívidas impagáveis e brigas políticas

Sérgio Sette Câmara abandonou a austeridade já no ano passado e elevou a aposta em 2020. Atrapalhado por juros e endividamento descontrolado, ele ainda tem uma eleição pela frente

Publicado em: 04 de Junho de 2020
Foto Por: Infoesporte
Autor: Globo Esporte - São Paulo
Fonte: GloboEsporte.com 
As finanças do Atlético-MG

Sérgio Sette Câmara está numa posição curiosa à frente do Atlético-MG. Ao mesmo tempo em que prevê o colapso financeiro do futebol brasileiro, e admite que não tem conseguido lidar com dívidas deixadas por antecessores, o presidente contratou um dos técnicos mais caros da América do Sul, Jorge Sampaoli; um dos diretores de futebol mais prestigiados, Alexandre Mattos; e ainda está atrás de reforços.

 

+ Especial: futebol brasileiro agrava finanças em 2019 e enfrenta uma das piores crises da história com pandemia do coronavírus

A explicação para um comportamento tão errático está na política, pois o clube passa por ano eleitoral, e não está havendo uma eleição qualquer. Mas esta história fica para daqui a pouco. Primeiro precisamos falar sobre por que um dos maiores clubes de Minas Gerais não consegue nem pagar salários – spoiler: a culpa não é do coronavírus.

 

Financeiramente, o Atlético-MG está na pior situação pelo menos desde 2014. Um jeito de chegar a essa conclusão é por meio da comparação entre faturamento e endividamento. Naquele tempo, em que o torcedor comemorava títulos da Libertadores e da Copa do Brasil, a relação era de três. Ou seja: havia três vezes mais dívidas do que dinheiro entrando.

 

Em 2019, a proporção entre receitas e dívidas voltou a 2,9 após passar por breve e insuficiente melhora nas contas. As explicações são muitas, e o torcedor precisará tomar cuidado para não comprar cegamente as narrativas de situação e oposição. O fato inegável é: a coisa está feia.

 

O que deu errado para piorar tanto? Não entrou dinheiro suficiente. Ainda que a receita registrada em 2019 tenha sido maior do que no ano retrasado, ela está abaixo do que vinha sendo arrecadado anteriormente e também abaixo do que havia sido previsto para a própria temporada.

 

Em termos de direitos de transmissão, hoje a verba está muito mais variável. A eliminação nas quartas de final da Copa do Brasil – para o rebaixado Cruzeiro, aliás – e a 13ª colocação no Campeonato Brasileiro não deixaram o clube perto dos grandes prêmios.

 

A área comercial fatura menos com patrocínios do que arrecadava há alguns anos. Bilheterias e sócios-torcedores também. Há que se considerar a crise econômica e política por que passa o Brasil, um complicador tanto para empresas quanto torcedores, mas há adversários noutros cantos do país com mais receitas nessas vertentes.

 

A única fonte que tem melhorado com consistência sob a direção de Sette Câmara é a dos jogadores vendidos. Talvez não seja a notícia que o torcedor gostaria de ouvir, pois se desfazer de atletas raramente agrada. No entanto, sem as vendas dos melhores tudo ficaria ainda pior.

 

Nota técnica: para que a comparação entre clubes esteja correta, o GloboEsporte.com subtrai da receita com atletas custos com comissões de intermediários e repasses de direitos econômicos para terceiros.

 

A frustração nas receitas não é o único problema. Talvez nem seja o maior. Houve também uma mudança na maneira como Sette Câmara administra o Atlético-MG. Detestado pela torcida em seu primeiro ano no cargo por prezar pela austeridade em seus discursos , o presidente começou a gastar no segundo e tudo indica que gasta mais no terceiro.

 

O indicador mais útil nesse sentido é a folha salarial. Isto é: a soma de salários, encargos trabalhistas, direitos de imagem e de arena, a considerar apenas o futebol profissional. Não entram neste cálculo gastos com pessoal de atividades sociais e esportes amadores.

 

Em 2018, tinham sido registrados R$ 123 milhões em custos com folha. Em 2019, a direção atleticana produziu um orçamento que apontava para um aperto nas contas: a expectativa era passar pela temporada com apenas R$ 107 milhões. No fim, foram gastos R$ 154 milhões.

 

Em português claro, significa o seguinte: Sette Câmara começou a temporada passada com a necessidade de reduzir o custo do futebol profissional. Em vez disso, ele o aumentou. E nesses números não estão contabilizados nem o técnico Sampaoli, nem os jogadores contratados por Alexandre Mattos, nem o diretor de futebol. A austeridade se foi.

 

Nota técnica: por falta de detalhamento adequado do orçamento atleticano para 2019, o GloboEsporte.com faz a comparação entre orçado e realizado apenas entre receitas, folha salarial e resultado.

2019 (em R$ milhões)

Orçado

Realizado

Diferença

Receitas

305

256

-48

Direitos de transmissão

131

121

-11

Marketing e comercial

35

22

-13

Torcida e estádio

53

39

-15

Outros

16

16

0

Transferências de atletas

70

58

-12

       

Folha salarial

107

154

46

Resultado líquido

3

-6

-8

 

Fonte: Orçamento e balanço financeiro

A conta alvinegra não fechou em 2019. E aqui o torcedor precisa ter cuidado para não se deixar enganar pela contabilidade. O deficit (prejuízo) descrito pelas demonstrações financeiras foi de R$ 6 milhões no ano inteiro, baixo demais para suscitar grandes preocupações. O problema é que este valor não conta toda a história.

 

O Atlético-MG registrou no balanço o recebimento de R$ 49 milhões do empresário Rubens Menin, dono da MRV, construtora que está levando adiante a construção do estádio atleticano. Este dinheiro não "existe" – ou, sendo mais preciso, esta quantia aparece no balanço apenas para cumprir uma regra contábil, mas não tem "efeito caixa".

 

Dito de outro modo, o clube recebeu um "ativo" (as cotas de participação sobre a sociedade de propósito específico que cuida da construção do estádio) e reconheceu o valor dele como uma "receita". Mas ela não representa dinheiro vivo. Qual o efeito prático? O prejuízo, que deveria ter sido de R$ 55 milhões, foi reduzido a apenas R$ 6 milhões.

 

A doação foi feita por Menin em 27 de dezembro de 2019, no apagar das luzes, e salvou o Atlético-MG de desrespeitar a regra do Profut que limita o prejuízo a apenas 5% da receita no ano anterior. A lei seria quebrada com sobras se o deficit fosse de R$ 55 milhões. Não há nada errado na doação do ponto de vista contábil. Mas é preciso se atentar a este fato para não tirar uma percepção equivocada sobre o baixo prejuízo.

 

Receitas abaixo do necessário, custos acima do projetado. Não tem segredo. Quando a diferença entre entradas e saídas é negativa, o endividamento aumenta. E aí está a maior ameaça ao futuro do clube.

 

Na prática, as dívidas do Atlético-MG são impagáveis. Sob a administração de Sette Câmara, os compromissos de curto prazo dispararam a R$ 334 milhões. Esta grana precisaria ser desembolsada apenas em 2020. Se o clube não tem dinheiro nem para pagar os custos operacionais, como conseguiria pagar todas essas dívidas urgentes?

 

A partir daqui, a explicação fica um pouco mais complexa porque envolve administrações anteriores. Ainda que o atual presidente não tenha cumprido com a austeridade que prometeu para adequar as contas, também é verdade que o legado dos antecessores Daniel Nepomuceno e Alexandre Kalil não ajudou em nada.

 

Apenas em juros sobre empréstimos bancários, o Atlético-MG pagou R$ 37 milhões em 2019. Sobre impostos atrasados, foram mais R$ 16 milhões. A taxa de juros baixou no Brasil nos últimos anos, tornou o custo do endividamento teoricamente mais fácil de lidar, e mesmo assim o clube mineiro continua a perder muito dinheiro por causa do passivo.

 

Tratando-se de bancos, o ano de 2019 acabou com parcelas atrasadas de três instituições: BMG, Daycoval e Mercantil. O clube precisou tomar nada menos do que R$ 199 milhões em novos empréstimos e pagou R$ 141 milhões de anteriores. A diferença é alta e problemática. Claramente, a máquina de financiar o futebol por meio do crédito está prestes a pifar.

 

Para piorar, há esqueletos saindo do armário. Sette Câmara acusa o surgimento repentino de um empréstimo feito em 2015, na administração de Nepomuceno, que não tinha sido contabilizado como dívida no balanço daquele ano. Uma entrada de R$ 11 milhões. O compromisso foi cobrado pelo banco em 2019 e agravou a situação.

 

Além do empréstimo bancário que apareceu do nada, a direção afirma ter lidado com dezenas de milhões de reais em dívidas antigas, como Ronaldinho Gaúcho, ações penduradas na Fifa e um acordo com a WRV – parceira de contratações feitas para reforçar o elenco em 2000.

 

Ah, a política

 

Hoje, o território alvinegro está dividido mais ou menos assim. Sette Câmara, o presidente, tem os apoios dos empresários milionários que colocam dinheiro e evitam que o clube entre em colapso. Mais especificamente, Rubens Menin (MRV) e Ricardo Guimarães (BMG).

 

Na oposição, está o prefeito Alexandre Kalil e possivelmente o atual presidente do Conselho Deliberativo atleticano, Castellar Guimarães Filho – que até já acenou a vontade de se candidatar para a presidência na eleição marcada para o término deste ano.

 

A disputa entre situação e oposição já acontece, de maneira velada, e tudo indica que estourará com acusações e retaliações entre as partes. Se esta análise é financeira, o que a política tem a ver?

 

Sette Câmara tem saída para arrumar as contas do Atlético-MG. O presidente gostaria de vender a outra metade do shopping localizado num bairro de luxo, o DiamondMall, cuja propriedade é do clube alvinegro. A primeira metade foi negociada por R$ 250 milhões para dar início à construção do estádio; esta segunda metade poderia ser "trocada" por todas as dívidas (exceto tributárias), segundo ele, com um parceiro como a própria Multiplan, que hoje administra o shopping.

 

Por mais que a diretoria conseguisse formatar toda a operação financeira para reduzir as dívidas com a "troca", no entanto, o cenário político tende a interditar essa possibilidade. A situação precisaria de dois terços de maioria no Conselho Deliberativo para aprovar a venda.

 

Para piorar o que já estava péssimo, a pandemia da Covid-19 paralisou campeonatos e também o fluxo de receitas do Atlético-MG. O clube estaria próximo de colapsar por causa das decisões e intrigas de todos os seus mandatários recentes – Sérgio Sette Câmara, Daniel Nepomuceno e Alexandre Kalil. Agora, com o coronavírus, está demitindo funcionários e já sabe que não cumprirá o orçamento.

 

Diante das finanças arrebentadas e da guerra política que tende a piorar muito no decorrer do ano, o torcedor pode ter uma certeza: não haverá ano tão decisivo para presente e futuro do Atlético-MG quanto 2020.

@rodrigocapel

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.