Com testes distintos, clubes batem mil exames e somam 65 casos positivos de coronavírus

Testagens completas, que chegam até a familiares nos grandes, e exames rápidos distinguem poderio econômico antes de retorno do futebol. Índice de infectados testados é de 6,5%

Publicado em: 21 de Maio de 2020
Foto Por: Reprodução
Autor: Raphael Zarko* — Rio de Janeiro
Fonte: Globo Esporte
Flávio Bolsonaro, Alexandre Campello, Jair Bolsonaro, Rodolfo Landim e o diretor de marketing do Flamengo, Alexsander Santos: clubes cariocas apelaram ao presidente para conseguir apoio no retorno do futebol. Apenas o Flamengo fez testes

Em duas semanas, o Flamengo fez, sozinho, mais de 300 testes para coronavírus entre jogadores, membros da comissão técnica, funcionários e familiares deste grupo. Ninguém testou tanto num futebol brasileiro que ainda busca padrão e organização no retorno aos treinos e vislumbra mais adiante volta dos jogos. Em seis estados, 14 clubes realizaram testes até agora.

Levantamento realizado pelo GloboEsporte.com aponta pelo menos 1.001 testes e 65 resultados positivos - não entraram na conta, por exemplo, a segunda leva de testes do Flamengo e clubes que não revelaram nem total de exames realizados e nem resultados. Índice de casos positivos para coronavírus é de 6,5% dos testados até aqui. Destes, 22 são atletas de futebol. O restante pertence ao quadro de funcionários, comissão técnica ou é familiar ou trabalha para algum atleta.

Os testes no futebol são tema do podcast "Jogo em Casa"

Na liga inglesa, que ainda não voltou, foram seis casos positivos em 748 testes - incidência de 0,8%. A Liga de Futebol Alemã (DFL) realizou até o início de maio 1.724 testes de Covid-19 em atletas, treinadores, fisioterapeutas e outros profissionais envolvidos nos treinamentos dos times da Bundesliga 1 e 2. Apenas 10 pessoas tiveram resultado positivo - incidência de menos de 0,6%. No Brasil, a CBF pediu aos clubes todas as informações para armazenar banco de dados próprio de resultados de testes em clubes.

Veja mais abaixo os clubes e os resultados no futebol brasileiro.

O número ainda é pequeno. Clubes aguardam autorização de retomada dos treinos, mas é reflexo da disparidade econômica e da falta de padronização destas testagens - o que poderia vir da CBF (a entidade nacional do futebol não distribuiu ainda a federações e clubes seu protocolo protetivo e de recomendações). Em entrevista na última sexta, o presidente da Comissão Nacional de Médicos de Futebol da CBF, Jorge Pagura, admitiu que fazer testes RT-PCR em todo o país é inviável.

- Não é o ideal (testes diferentes), mas são as armas que temos hoje - observou o chefe médico do Avaí, Luis Fernando Funchal, que participou da produção do protocolo nacional da CBF e também do estado de Santa Catarina.

Hoje, há três tipos de testes mais comuns. O RT-PCR é mais caro, pode custar R$ 250 cada um em lote e tem a maior precisão do quadro clínico. Neste exame, uma espécie de cotonete é colocado dentro do nariz ou da garganta para coleta de mucosa e, depois, este material é examinado em laboratório. Mais dois outros testes sorológicos, um deles a sorologia venosa, com agulha na veia do braço, e a sorologia de teste rápido, com furo na ponta do dedo, com resultado em 10 a 15 minutos.

- Não dá para comparar resultado do RT-PCR com teste rápido. É um retrato não fidedigno - explicou Funchal.

O Avaí realizou 149 testes - atrás apenas do Flamengo na quantidade de testagem, graças a uma parceria com grande laboratório -, com 57 RT-PCR e 92 testes rápidos. Detectou quatro resultados positivos - com três jogadores já imunizados e um exemplo que cabe bem para a diferença de testes.

>>> Coritiba inicia testes em jogadores e comissão técnica

- O RT-PCR é praticamente impossível de dar erro. Um jogador nosso deu positivo nesse teste. Entrei em contato e ele me questionou: "não é possível, estou super bem. Tomamos todos cuidados". Fui conferir com o laboratório, que tinha a contraprova e foi taxativo. No exame sorológico dele, este teste rápido, tinha sido negativo - contou o médico do Avaí.

Feminino tem três testes e 100% positivo

Com mais de 270 mil casos diagnosticados e quase 18 mil mortes, o Brasil tem estágios diferentes de acompanhamento, flexibilização e transmissão da doença. Quarto estado com maior número de casos (22.132 até terça-feira), o Amazonas teve primeiros testes no futebol divulgados. Foi no time feminino 3B Sport, que disputa a série A2 do Brasileiro feminino. Dos três testes - do modo rápido - realizados, um no presidente (Bosco Brasil) e em duas jogadoras (Thaisinha e Gabi), os três deram positivo. O presidente encomendou mais 20 kits para testar mais atletas e funcionárias.

>>> No Amazonas, presidente e duas jogadoras dão positivo

Os testes rápidos - que custam pelo menos metade do RT-PCR - são a maioria entre os mil realizados até aqui. Há dúvidas sobre a eficácia dele - com estudos que apontam entre 40% a 80% de falsos negativos, caso do jogador do Avaí citado mais acima nesta reportagem.

Como os clubes devem driblar este problema em potencial? Com questionários diários e rígidos para atletas e todos envolvidos no futebol. Tosse? Esposa gripada? Sem paladar? A recomendação é encaminhar a teste mais elaborado e ir para quarentena.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a Ferj comprou 700 testes deste tipo. Nos últimos dias foi ao Volta Redonda (40 testes), Bangu (39), Portuguesa (40) e no Boavista (que não divulgou nem a quantidade nem o resultado de exames) - foram 15 casos positivos detectados. Estava prevista a realização de testes no Resende, mas, com elenco e comissão técnica desmanchados, foi cancelado. Nesta quarta, o Madureira deve passar por testes. No sindicato de atletas de futebol do Rio de Janeiro (SAFERJ), dos 20 testados, o que incluiu o RT-PCR, 12 contraíram coronavírus.

Quem vai pagar?

Com estaduais suspensos por tempo indeterminado e muitos clubes em dificuldades econômica, a compra de testes está longe da lista de prioridades de cartolas. Em São Paulo, estado brasileiro com mais casos e mais mortes, apenas Palmeiras e Bragantino compraram os testes, mas ainda aguardam data de retorno aos treinos. No Ceará, terceiro estado brasileiro mais atingido pelo coronavírus, Ceará e Fortaleza compraram, mas ainda não testaram atletas.

O custo de investimento em testes varia de acordo com a quantidade e do tipo de testes. O Flamengo comprou 600 testes por cerca de R$ 100 mil. Mas há ainda custos de aplicação dos exames

Em Pernambuco, não há ainda sinal de retorno das atividades e nem de aquisição de testes. Em Goiás, o Atlético comprou, o Goiás está em fase de prospecção, mas ainda não realizaram testes. Em Sergipe, o Confiança, da Série B do Brasileiro, afirma que a CBF se comprometeu a disponibilizar os testes, mas já tenta parcerias com laboratórios locais.

No Rio Grande do Sul, Internacional e Grêmio foram os primeiros a testar. Depois de alguns dirigentes contaminados, os gaúchos se adiantaram em testar antes do retorno. No Tricolor, dois funcionários e um jogador (Diego Souza) testaram positivo. O São José fez 27 testes, sem resultados positivos. O Coritiba iniciou testes no grupo nessa terça-feira.

Covid-19

Clube

Número de testes

Positivos

Tipo de teste

Flamengo

293 na primeira bateria

38

RT-PCR e teste rápido

Bangu

39

12

Teste rápido

Portuguesa-RJ

40

3

Teste rápido

Volta Redonda

40

2

Teste rápido

Boavista

Não informado

Não informado

Teste rápido

Atlético-MG

120

Não houve

RT-PCR e teste rápido

Cruzeiro

55 na primeira bateria

Não houve

RT-PCR e teste rápido

América-MG

35

Ainda não divulgado

Não informado

Grêmio

Cerca de 100

3

Não informado

Internacional

Cerca de 100

Não houve

Não informado

São José

27

Não houve

Não informado

Avaí

149

4

57 RT-PCR e 92 testes rápidos

Coritiba

Não informado

Ainda não divulgado

RT-PCR e teste rápido

3B Sport

3 na primeira bateria

3

Teste rápido

 

Fonte: GloboEsporte.com

* Com colaboração de Ana Canhedo, Dani Walzburiech, Derik Bueno, Eduardo Florão, Eduardo Rodrigues, Elton de Castro, Felipe Zito, Fernando Vasconcelos, Filipe Rodrigues Marques, Gustavo Rodrigues, Raphael Carneiro e Thaís Jorge.

 

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