Coronavírus: cresce pressão de atletas para o adiamento das Olimpíadas

Desportistas e dirigentes dizem que não existem mais condições de os Jogos serem realizados e confrontam o Comitê Olímpico Internacional

Publicado em: 20 de Março de 2020
Foto Por: Reuters
Autor: GloboEsporte.com — Rio de Janeiro, RJ
Fonte: GloboEsporte.com — Rio de Janeiro, RJ
Coe disse não ser complicado transferir os Jogos para 2021

Atletas, dirigentes e profissionais do mundo esportivo começaram nesta quinta-feira a pressionar o Comitê Olímpico Internacional (COI) para que as Olimpíadas de Tóquio sejam adiadas ou canceladas. O movimento aconteceu um dia após o presidente da entidade, o alamão Thomas Bach, se reunir por videoconferência com 220 atletas e explicar que, mesmo diante da pandemia de coronavírus, ainda faltam quatro meses para o início das competições.

 

+ Bach: "É claro que estamos considerando cenários diferentes para as Olimpíadas"

A decisão de manter os Jogos Olímpicos programados para ocorrerem entre 24 de julho a 9 de agosto irritou atletas e dirigentes esportivos. A primeira manifestação contrária aconteceu ainda na quarta-feira, logo após da reunião com os atletas, quando a integrante da Comissão de Atletas do COI, a canadense Hayley Wickenheiser, tetracampeã olímpica de hóquei no gelo, classificou como irresponsável a decisão de não adiar as Olimpíadas de Tóquio, diante do avanço do coronavírus no mundo.

 

A posição de Wickenheiser foi ratificada pela atual campeã olímpica do salto com vara, Katerina Stefanidi, que em seu perfil nas redes sociais contestou a manutenção dos Jogos. A atleta grega disse não ser mais possível esperar por quatro meses para uma decisão.

 

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- Não é sobre como as coisas serão em quatro meses. É sobre como as coisas estão agora. O COI está querendo que a gente se mantenha arriscando nossa saúde, a saúde da nossa família e a saúde pública treinando todos os dias? Estão nos colocando em perigo agora, hoje, não em quatro meses - escreveu Katerina Stefanidi.

 

Um post emocionado do ginasta alemão Andreas Toba, em um rede social, provocou comoção entre os desportistas da modalidade. Atletas brasileiros como o medalhista olímpico Arthur Nory, além de Caio Souza, Rebeca Andrade, Flávia Saraiva, Francisco Barretto, Leonardo Souza e Maria Cecília escreveram comentários de apoio, a exemplo do que fizeram os alemães Marcel Nguyen, Tabea Alt, Sophie Scheder e Emilie Petz além do espanhol Nestor Abad.

 

- Agora é mais do que claro para mim que os Jogos Olímpicos precisam ser adiados. Nosso mundo está em uma das crises mais graves, todos são convidados a ficar em casa. Após a minha grave lesão no Rio, participar dos Jogos em Tóquio foi a minha motivação diária. Mas estou convencido de que as Olimpíadas de 2020 não podem ocorrer a partir de julho. Não podemos manter os valores do esporte, como justiça, espírito de equipe e respeito na atual crise. As diferenças internacionais são muito grandes quando se trata de oportunidades de treinamento. De uma proibição completa ao treinamento normal, não há justiça aqui - escreveu o ginasta alemão.

 

Mas o debate subiu de tom quando o nadador brasileiro Bruno Fratus questionou a presidente da Comissão de Atletas do COI, a bicampeã olímpica Kirsty Coventry. Por vídeo em uma rede social, ao fazer um balanço sobre a reunião com os 220 esportistas, a zimbábue explicou que está em contato constante com as federações esportivas para saber sobre o processo de classificação para os Jogos e aconselhou os competidores a seguirem "fazendo o que estão fazendo".

 

Bruno Fratus não conteve sua indignação e comentou que o conselho de Kirsty estava desconectado da realidade. Ele ainda pediu para que a presidente da Comissão de Atletas do COI ouvisse os esportistas.

 

- Kirsty, como colega nadador e atleta olímpico, eu te peço para reconsiderar e consultar com outros atletas pelo mundo. Não tenho certeza se você está sabendo que muitos atletas, como eu, estão incapazes de treinar. Além disso, o conselho para "continuar fazendo o que vocês estão fazendo" me parece desconectado com a realidade quando você vê líderes mundiais diariamente na televisão pedindo para as pessoas se isolarem - escreveu o nadador brasileiro.

 

Os dirigentes também começaram a pressionar o COI para o cancelamento ou adiamento dos Jogos de Tóquio 2020. O presidente do Comitê Olímpico Espanhol, Alejandro Blanco, lembrou que seu país é um dos mais afetados pela pandemia de coronavírus e, por isso, teme que seus esportistas participem da competição em situação de desigualdade.

 

Já o presidente da Federação Internacional de Atletismo (IAAF) e ex-presidente do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Londres 2012, Sebastian Coe, disse não ser difícil transferir as Olimpíadas para 2021. Em entrevista à BBC, ele também admitiu que os atletas já foram prejudicados em sua preparação, por causa do adiamento de várias competições.

 

- As federações internacionais, na verdade, evitam anos olímpicos com frequência para ter seu campeonato mundial. O atletismo tem seu campeonato mundial nessa data (2021). O campeonato europeu de futebol foi adiado. O calendário esportivo é uma matriz complicada e não é simples facilitar um evento de um ano para o outro. Seria ridículo dizer que algo está descartado no momento. O mundo inteiro quer clareza; não somos diferentes de nenhum outro setor - destacou Coe.


E até no Japão as pressões começaram a ser feitas pela não realização dos Jogos em julho. Medalhista olímpica do judô e membro do conselho do Comitê Olímpico Japonês (JOC), Kaori Yamaguchi, pediu que as competições seja sejam adiadas e argumentou que os atletas não têm mais tempo de se prepararem de modo adequado para o evento.

 

- As Olimpíadas não devem ocorrer em uma situação que as pessoas no mundo não possam desfrutar. Até onde eu sei, atletas dos Estados Unidos e da Europa não conseguem treinar normalmente e não conseguiram concluir seus torneios classificatórios. Isso torna impossível que eles se apresentem bem nas Olimpíadas, sem contar todos os riscos pelos quais estão passando - alertou Yamaguchi ao jornal Nikkei.

 

Outras manifestações pelo mundo:

Matew Piasenti, inglês tetracampeão olímpico de remo

Sinto muito, Sr. Bach, mas esse é um tom surdo. O instinto de manter a segurança (para não mencionar obedecer às instruções do governo para ficar em casa) não é compatível com o treinamento, a viagem e o foco que uma Olimpíada iminente exige de atletas, organizadores de espectadores, etc. Mantenha-os em segurança.

María Pérez, atleta espanhola de marcha atlética

"Tóquio 2020 será a minha primeira Olimpíada, o sonho de todo atleta, mas se eu aprendi alguma coisa com as minhas referências olímpicas, é que um dos valores essenciais é o de igualdade de condições. Nestes tempos terríveis para todos, fica claro que nem todos os atletas estão na mesma situação, então, por mais que doa, eu defendo o pedido de adiamento desses Jogos."

Brian Gregan, velocista inglês

O COI não está liderando pelo exemplo! Eles estão colocando milhões de vidas em risco, seguindo com o cronograma. Saia e remarque para outubro e isso dará aos atletas tempo para se prepararem, e aos médicos tempo para descobrir uma cura para o Covid-19.

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