Dois pastéis e um caldo de cana: Moisés dá volta por cima no Inter e revive luta com R$ 20 na conta

Em entrevista exclusiva ao ge, lateral-esquerdo resgata perrengues no início da carreira como exemplos para superar briga em Gre-Nal e oscilação com a camisa colorada

Publicado em: 09 de Janeiro de 2021
Foto Por: Ricardo Duarte/Divulgação Inter
Autor: Eduardo Moura — Porto Alegre
Fonte: GE
Moisés vibra após construir jogada do gol contra o Boca Juniors

Desde sua chegada ao Inter, no começo de 2020, Moisés tem dividido opiniões de torcedores. Ele mesmo admite a oscilação durante a temporada, com a mancha da briga no Gre-Nal da Libertadores. Mas, da mesma forma que se ergueu ao ver apenas R$ 20 na conta no início da carreira, acredita que agora deu a volta por cima, sob a confiança de Abel Braga.

 

- Vê se vocês falam um pouquinho bem do Moisés, cara! - citou o treinador ao distribuir elogios ao sistema defensivo após a vitória por 2 a 0 sobre o Ceará, na última quinta-feira.

 

Em entrevista exclusiva ao ge, o camisa 20 faz ponderações sobre as cobranças recebidas no Inter, a briga pelo título brasileiro e o começo da carreira, além do arrependimento pela briga no Gre-Nal que o deixou fora de quatro jogos na Libertadores.

 

Moisés retomou a titularidade após lesão muscular na vitória sobre o Boca Juniors, nas oitavas de final da Libertadores. O Inter acabaria eliminado nos pênaltis, mas o lance do gol contra naquele 1 a 0 foi todo construído por ele. Desde então, virou presença ofensiva constante. Participou também de gols diante de Palmeiras e Botafogo.

 

Naquele momento que você está oscilando, é claro que a torcida vai pegar no seu pé, mas vai pegar para você melhorar e ajudar a equipe. Eu tranquilamente via meus jogos, meus erros e treinava para não cometê-los mais. Estou dando a volta por cima.

— Moisés em entrevista ao ge

 

Contra o Ceará, foi decisivo na defesa. No primeiro tempo, com um carrinho, salvou gol praticamente certo de Cléber. Está com a confiança retomada para a reta final da temporada. E tudo ele deve a dois pastéis e um caldo de cana. Entenda na entrevista abaixo:

 

ge - A temporada ainda está em andamento, mas que balanço você faz desse seu primeiro ano no Inter?
Moisés - 
Tive um início muito bom, me apresentei à torcida, às pessoas que não me conheciam. Mas tive uma lesão inesperada e fiquei um mês afastado durante a pré-Libertadores. No Brasileiro eu voltei bem, como titular e vinha jogando com o Coudet. Atrapalhou um pouco quando teve aquela confusão no Gre-Nal, da qual me arrependi muito. Perdi espaço, o Uendel teve oportunidades, aproveitou bem, ajudou o grupo. Voltei e acho que oscilei um pouco no Brasileiro, não fui bem em algumas partidas, também pude ajudar com algumas assistências, um elemento surpresa no ataque. Logo na chegada do Abel, eu me machuquei e fiquei três semanas fora. Quando voltei, recebi oportunidade, comecei a me afirmar um pouco mais. Acho que foi boa a temporada embora sem título, mas estamos na briga pelo Brasileiro.

 

Você tem participado de muitos gols no ataque depois que voltou de lesão. A mudança de treinador pesou nisso?

Não vejo a mudança do treinador, mas é ter confiança, acreditar no seu potencial, começar a ler o jogo e me apresentar bem no ataque. Estou feliz por esse momento. Soube ter equilíbrio no momento que estava oscilando, com as críticas da torcida. Sou jogador do Inter e o atleta tem que ter esse equilíbrio, saber que as cobranças virão e continuei trabalhando tranquilo, com a confiança do treinador, seja do Coudet ou do Abel. Espero que em 2021 possa ajudar ainda mais para alcançar nossos objetivos.

 

Você citou as críticas. Essas cobranças surpreenderam de alguma forma?

Passei pelo Corinthians, clube que tem uma cobrança grande, passei pelo Botafogo. Querendo ou não, o Bahia é uma torcida de massa que exige alto nível. Aqui a cobrança é muito maior, ainda mais por ter dois clubes de alto nível no estado. Naquele momento que está oscilando, é claro que a torcida vai pegar no seu pé, mas para você melhorar e ajudar a equipe. Eu tranquilamente via meus jogos, os meus erros, os vídeos que a estrutura do clube passa para a gente. Estou dando a volta por cima. No meu modo de ver, você não vai responder no Instagram, no Twitter, vai responder dentro de campo. Procuro fazer isso e tem dado certo.

 

É um momento então de recuperação na temporada?

Com certeza. Vejo que tive alguns erros, até na final do Gauchão, que você fica um pouco mais marcado, tem um peso. Isso é vestir uma camisa grande, tem que estar atento aos detalhes. Eu sou emprestado aqui no Inter, meu contrato termina em 31 de dezembro de 2021, e tenho como objetivo que essa é minha temporada aqui no Inter. Vou trabalhar ao máximo para ajudar minha equipe e me firmar, não digo na titularidade, mas sim mostrar meu futebol para ter a confiança da nova direção, dos torcedores. O melhor caminho é esse.

 

Você já rodou por grandes clubes. Tem a intenção de ficar um tempo maior agora no Inter?

Meu objetivo é chegar no final do contrato, ou no meio, e receber a notícia, junto com meu agente, que o Inter vai efetivar a compra, porque quero ficar aqui e dar continuidade na minha carreira. Estou num clube muito bom, gigantesco, uma estrutura muito boa. Eu sei que para isso acontecer depende muito de mim, das minhas atuações, de conquistar títulos. Isso vai favorecer muito em um futuro próximo, em negociações, conversas e assim por diante.

 

Recentemente, o Inter teve uma mudança profunda. Não só na comissão técnica, mas toda diretoria. Como é viver uma mudança assim com a temporada em andamento?

Estamos acostumados com isso, é uma parte mais política que eu prefiro não entrar muito. Mas todos que chegaram são bem-vindos. O novo presidente conhece bem a gente, já esteve conosco, conhece bem o clube, a cidade, é colorado. Com certeza, na primeira conversa vai dar todo suporte para que tenhamos essa parceria para estar perfeito para fazer um bom ano.

 

Ainda dá para ser campeão brasileiro?

Temos confrontos diretos. Mantemos aquele foco que ainda dá para buscar. Primeiro objetivo é se firmar na Libertadores e vamos brigar pelo titulo até o último jogo. Se o São Paulo vencer todas partidas, é mérito deles, mas nós vamos brigar todos jogos, porque sabemos da capacidade da nossa equipe, do trabalho que o Abel vem fazendo. Temos uma sequência de vitórias muito boa. Mas com muito pés no chão, muita humildade, vamos jogo a jogo para lá na frente conquistar nossos objetivos.

 

Tem algum tipo de motivação especial para o Gre-Nal do dia 24?

É um jogo à parte, mexe com muitas pessoas, com o estado. Acho que está um pouco longe ainda, temos alguns jogos importantes. Mas se a gente chegar para o jogo contra o Grêmio com uma sequência boa de vitórias, que se tem o clima diferente no vestiário, a confiança diferente, da torcida também, com certeza vamos chegar bem.

 

Você falou sobre a briga no clássico da Libertadores e mostrou arrependimento...

Ali o clima esquentou e, naquele momento que o sangue sobe, não imagina que vai dar aquela proporção de brigas, que já não é mais futebol, entra a violência. É um passado que serve de aprendizado para mim e para outros jogadores que estiveram na confusão. Paguei pelo meu erro que foram quatro jogos de suspensão na Libertadores, e com razão. Nós atletas não estamos ali para brigar, temos que dar exemplo. No futebol não tem "por favor", mas ali foi fora do futebol. Mas isso foi um passado que já morreu.

 

Você chegou a jogar na base do Inter, mas depois seguiu outros caminhos até retornar ao clube. Foi muito perrengue?

Em 2014, quando cheguei no Madureira, tive que abrir mão de algumas coisas, a fase não estava boa. Estava com R$ 20 na conta. Almocei por R$ 10 e só tinha mais R$ 10 no bolso para a janta. Não tinha restaurante aberto. Comprei dois pastéis e um caldo de cana. Meu treino terminou umas 18h, tive que esperar até umas 20h para comer os pastéis. Ali foi marcante. Com a minha fé e dedicação, eu sabia que para passar aquelas dificuldades tinha que ter um processo para poder vencer. Foi o início, não só na dificuldade, mas uma alavancada na minha carreira, porque dali fui para o Corinthians com um contrato de três anos. Encaminhou um pouco da minha história e minha trajetória até aqui.

 

E quando você assinou com o Corinthians, acho que tinha mais na tua conta que R$ 20, né? (Risos)

Com certeza! (Risos). Os valores aumentaram de forma que eu não esperava. É o futebol. Agradeço a Deus e depois ao Charles Miller. Mas vale a pena. (Risos)

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