Sábado,
17 de Abril de 2021

Novo técnico do Vasco, Cabo vive evolução, mostra variações e facilidade para cativar grupo e torcida

Marcelo Cabo, com Dunga e Jorginho na Copa de 2010. Ele foi observador da Seleção entre 2008 e 2010

Autor: Fred Gomes e Marcelo Baltar * — Rio de Janeiro

Fonte: GE — Rio de Janeiro

Publicado em 01 de Março de 2021 (Atualizado Há 2 meses atrás)

Legenda: Sem Legenda

Autor da Foto: Arquivo Pessoal

Marcelo Cabo terá sua primeira oportunidade em um grande clube do Rio de Janeiro, mas acumula experiência de mais de uma década em outras praças do futebol brasileiro. Aos 54 anos, ele desembarca em São Januário credenciado pelo título do Campeonato Goiano e pela boa campanha do Atlético-GO no Brasileirão.

 

Pouco conhecido por parte da torcida, Cabo foi o escolhido após uma série de avaliações do Vasco e recebeu a missão de reconduzir o clube à elite do futebol brasileiro. Quem o acompanhou de perto acredita que o treinador está pronto para o desafio.

 

- Estou indo para um gigante do futebol brasileiro, que me deu essa oportunidade e acreditou no meu trabalho. Passa por uma reestruturação e confiou a mim esse trabalho técnico. Sempre tive uma meta profissional de voltar para um grande clube com o Vasco... Acredito na reestruturação do Vasco, na seriedade do presidente e do seu diretor. Quando saí do Rio, falei que voltaria a um dos quatro grandes. E o Vasco me abraçou, e eu abracei o Vasco. Eu mais escolhi o Vasco do que o Vasco me escolheu - disse Cabo, após o título goiano.


Cabo iniciou a carreira como treinador em 2004, no Bangu, e acumula passagens por vários clubes menores do Rio de Janeiro, como Macaé, Volta Redonda, Resende e Tigres. Foi longe do futebol carioca, no entanto, que alçou voos maiores e conseguiu seus maiores feitos. Em 2006, foi convidado por Marcos Paquetá para ser auxiliar da Arábia Saudita na Copa do Mundo da Alemanha. Foi sua primeira experiência em Mundiais. Quatro anos depois fez parte do time de observadores da comissão de Dunga, na Copa de 2010. De volta ao Brasil, foi campeão da Série B em 2016, em campanha irretocável com Atlético-GO, e também levou o CSA à Série A em 2018.

 

Nome conhecido em times brasileiros de menor investimento, Cabo, há tempos, aguarda uma oportunidade em um grande clube do futebol brasileiro, como o Vasco. Pelos bons trabalhos realizados, talvez ela tivesse surgido antes. Um deslize fora de campo, no entanto, pode ser um dos motivos por a chance ter demorado tanto.

 

Deslize, volta por cima e família vascaína

 

Na ocasião, logo após o título da Série B com Atlético-GO, o treinador teve um problema de foro íntimo e desapareceu por quase 40 horas em Goiânia. Sem notícia do técnico, o Atlético-GO acionou a polícia e houve o temor de que algum caso de violência poderia ter acontecido. A situação ganhou repercussão nacional. Ele foi encontrado bem, estava em um motel, perdeu treinos do Atlético-GO e posteriormente reconheceu ter exagerado no álcool.

 

- Não sou de beber. Dei uma exaltada. Não queria entrar muito em detalhes, mas foi isso. Estávamos em uma confraternização que durou até 4h da manhã e perdemos um pouco a mão - disse Cabo, ao ge, na ocasião.

 

A página foi virada, o incidente ficou para trás, e Marcelo Cabo foi perdoado pela diretoria do Atlético-GO. O trabalho no clube seguiu naturalmente, sem qualquer prejuízo, e sua saída meses depois nada teve a ver com o episódio. Até hoje, Cabo é extremamente grato ao dirigente Adson Batista pela "segunda chance" que recebeu. E o destino reservou que ele reconquistasse projeção nacional justamente no Dragão, clube para qual retornou no ano passado para substituir Vágner Mancini.

 

Cabo jogou futsal no Vasco na década de 90 e sua família é vascaína. Inclusive sua filha Maria Eduarda, de 16 anos. A jovem viveu um drama ao ser diagnosticada, em 2018, com câncer. Recentemente ela se curou de um tumor no pâncreas para a alegria da família. E ao saber que o pai seria treinador do Vasco, clube de coração de Maria Eduarda, ela teve mais um motivo para comemorar e homenageou a Marcelo nas redes sociais.

 

 

ge ouviu pessoas que conhecem bem o trabalho de Cabo. Caso de Jorginho, por exemplo, treinador do Vasco em sua última participação na Série B, em 2016. Cabo foi auxiliar dele no Figueirense, na Ponte Preta e Al-Wasl, além de ter trabalhado como observador técnico da Seleção entre 2008 e 2010, período em que Jorginho formava dupla com Dunga na CBF.

+ Beque firme no salão do Vasco, Cabo teve visão de treinador que decidiu outra semi com o Flamengo em 97

 

Ouvimos Marcos Paquetá, que levou Cabo para ser seu auxiliar no mundo árabe. Juntos, além de disputarem a Copa de 2006 com a Arábia Saudita, conquistaram a Copa do Rei no Bahrein e a segunda colocação no campeonato local. O jornalista Guilherme Gonçalves, que cobre o dia a dia do Atlético-GO pelo ge e Kleber Guerra, ex-goleiro do Fluminense e comentarista da TV Anhanguera, afiliada da Globo em Goiás, também deram depoimentos sobre o novo técnico do Vasco.

 

Jorginho
 

 

Trabalhou com Cabo no Figueirense, Ponte, Al-Wasl e Seleção

O Marcelo foi meu auxiliar no Figueirense em 2012 e 2013, depois trabalhamos juntos na Ponte Preta e no Al-Wasl. Também foi observador da Seleção entre 2008 e 2010. Ele é um excelente treinador e vem demonstrando isso ao longo da carreira. Foi campeão em 2016 da Série B com Atlético-GO, acabou de ser campeão goiano, já subiu com o CSA, classificou o Atlético-GO para Sul-Americana.

Ele vem fazendo excelentes trabalhos. É uma oportunidade que vai ter de dirigir um grande clube do futebol brasileiro, e tenho certeza que vai fazer um grande trabalho pelo conhecimento que ele tem de futebol, de sistemas táticos e de atletas das Séries A e B.

 

Kléber Guerra

 

Ex-goleiro e comentarista da TV Anhanguera

Conheço o Marcelo Cabo há bastante tempo, desde a época que joguei no Fluminense. É um cara que começou como auxiliar, fez bons trabalhos no Rio de Janeiro. Depois que encerrei a carreira, vim para Goiás, virei comentarista e acompanhei bastante o trabalho dele. Acho que posso falar com propriedade.

É um cara que se encontra em um momento bastante positivo para encarar essa batalha no Vasco. O clube vai passar por uma transição, terá uma montagem de elenco diferenciada, aproveitando os garotos. O perfil do Marcelo se encaixa muito bem dentro do que o Vasco precisa. E vai de encontro com o que ele busca para a carreira, que é um retorno ao Rio, em um momento positivo, após uma campanha excelente com Atlético-GO.

 

Ele pegou o Atlético-GO montado pelo Vágner Mancini, mas o time perdeu vários titulares e, mesmo assim, não perdeu o ritmo. O Marcelo soube controlar, indicou peças de reposição, como William Maranhão e Wellington Rato, jogadores que ele conhecia e viraram titulares. Acho que o Vasco terá de ter essa criatividade no mercado.

 

A cobrança no Vasco será maior. Mas senti o Marcelo muito empolgado na entrevista de despedida. Vejo nele uma determinação muito grande para montar esse projeto no Vasco.

 

É um treinador que gosta de transição rápida. Na passagem anterior no Atlético-GO, a equipe era mais defensiva. Mas o Marcelo foi se modernizando, e notei uma evolução muito grande nessa última passagem. Ele escolheu peças que deram dinâmica ao jogo, jogadores que não guardam posição. Ele também evoluiu muito em relação a substituições, foi mais ousado, com trocas rápidas de esquema tático. Isso demonstra maturidade e controle da equipe.

 

Ele é um cara que tem um bastidor muito bom com os atletas. Acho que o Vasco fez uma escolha muito positiva. Pegou um treinador maduro e pronto para um desafio grande. A cobrança será grande, talvez pelo fato dele só ter trabalhado em times pequenos no Rio de Janeiro. Mas ele vem avalizado por vários bons trabalhos. Será uma grande oportunidade para se mostrar em um grande centro.

 

Guilherme Gonçalves

 

Setorista do Atlético-GO no ge

A principal virtude de Marcelo Cabo é falar a língua do vestiário, ser próximo dos jogadores, mas também saber cobrar. Extrair o máximo dos atletas e fazê-los comprar a ideia de jogo.

Cabo costuma utilizar o esquema 4-1-4-1, com variações para 4-3-3, geralmente mesclando um atacante de velocidade e um meia construtor abertos pelas beiradas. O segundo volante também tem papel primordial nas equipes dele, como foi com Magno Cruz no título da Série B em 2016 e com Marlon Freitas agora, na melhor campanha do Atlético-GO na história da Série A.

Ele gosta de ter um time sempre em boa forma física para marcar forte e sair com velocidade na transição ofensiva, talvez essa sua principal característica como treinador. Sabe criar conexão e identidade com a torcida.

 

Marcos Paquetá

 

Trabalhou com Cabo no futebol árabe e na Copa de 2006

Conheci o Cabo quando ele era treinador do Madureira e já percebia que ele tinha uma forma de pensar futebol muito parecida com a minha. Eu estava no mundo árabe, apareceu uma oportunidade de levar um grupo de treinadores para organizar um clube como tudo, desde o sub-17 ao time olímpico. Dentre eles, o Marcelo. Ele foi muito bem lá. Aí recebi uma proposta da seleção da Arábia Saudita, e ele foi como auxiliar.

Tínhamos um perfil parecido, mas ele tem um diferencial por ser um grande gestor de pessoas. E isso é fundamental no futebol. Ele galgou por méritos próprios, em equipes com dificuldades, na segunda divisão. É um perfil muito legal, está adquirindo uma maturidade muito grande. Voltou no ano passado ao Atlético-GO, fez um trabalho acima da expectativa. Essa é a grande chance dele, em uma equipe grande como o Vasco.

Ele gosta de desafios, é muito corajoso. Tem todos requisitos para fazer um bom trabalho no Vasco. O grande desafio será fazer com que diretoria e torcedores tenham paciência de entender que é um trabalho a longo prazo. Ele jogou futsal no Vasco, e isso faz toda diferença para torcida.

Fico muito feliz em ver o sucesso dele. Foi tudo muito gradativamente, o que é fundamental. Não foi do nada. Outro aspecto legal que ele é muito bom em visualizar as necessidades de uma equipe. Ele sempre me ajuda bastante quando preciso de algum jogador. Ele é muito bom nesse aspecto e vai ajudar o Vasco a formar esse time.

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