Quarta - Feira,
05 de Maio de 2021

O futebol deveria ser "assim mesmo", Lisca?

Pandemia e silêncio dos estádios revelaram que comportamentos como o do treinador do América-MG são uma triste rotina no futebol

Autor: GE

Fonte: GE

Publicado em 04 de Maio de 2021 (Atualizado Há 1 dia atras)

Legenda: Lisca gesticula durante o clássico mineiro

Autor da Foto: Mourão Panda

Como se não bastasse o imenso vazio dos jogos sem torcida, o futebol a portas fechadas nos trouxe outra desagradável revelação: nos estádios silenciosos, em que tudo se ouve através das transmissões de TV, descobrimos que parte importante da falta de educação, da escassez de senso de esportividade e de respeito ao jogo vem da beira do campo, mais especificamente das áreas técnicas. Lisca não está sozinho, não foi o primeiro e nem será o último, mas seu espetáculo particular no clássico mineiro de domingo foi um emblema de como se trata o jogo num Brasil em que impera a lógica do vencer a qualquer custo. O treinador discutiu com jogadores rivais, pressionou a arbitragem e, como ponto alto, deu uma entrevista coletiva alarmante.

É sintomático que, alguns minutos após o encerramento do jogo e já sem a desculpa do chamado “sangue quente” da competição, um treinador se apresente diante dos microfones sem aparentar qualquer desconforto. No lugar de uma mínima percepção de que o público merecia ao menos uma satisfação, Lisca dobrou sua aposta. Em campo, já recebera o terceiro cartão amarelo em um campeonato de 12 partidas, marca notável para um treinador; já fora extremamente desrespeitoso com o goleiro Fábio; e já trocara gestos e palavras inconvenientes com os reservas do Cruzeiro. Na sala de entrevistas, a ênfase premeditada com que repetiu o termo “Série A, Série A”, ao comentar as prioridades do América-MG na temporada, extrapolou o limite da deselegância e da falta de esportividade em relação ao rival. Mas tudo isso tem uma lógica, que o próprio Lisca revelaria em uma de suas respostas.

- O banco deles nos provocou, colocou a mão em órgãos genitais. Eles nos humilharam. Mas o que é do campo fica no campo. Futebol é assim mesmo – afirmou.

Eis nosso grande drama: muita gente que milita no jogo acredita piamente que “futebol é assim mesmo”. Aliás, o futebol brasileiro funciona como um gigante “é assim mesmo”. Jogadores e clubes são submetidos a um calendário insano com Estaduais anacrônicos porque aqui “é assim mesmo”; times não pagam salários e acumulam dívidas bilionárias porque, no Brasil, “é assim mesmo”; técnicos precisam apresentar resultado imediato porque, do contrário, serão demitidos num país em que vida de treinador “é assim mesmo”; times contratam jogadores, disputam títulos com eles, mas jamais pagam ao clube vendedor porque “é assim mesmo”. Em campo, profissionais trocam ofensas e tumultuam o jogo porque “é assim mesmo”. Lisca se mostrou sensível e humano ao pedir a paralisação dos jogos e um auxílio emergencial durante a pandemia, mas neste episódio se comportou como um produto de um ambiente permissivo com transgressões.

As imagens de TV não mostram as provocações cruzeirenses a que se refere o treinador. Se existiram, são reprováveis. Mas é especialmente preocupante que um técnico, em tese o líder e condutor de um elenco com muitos jovens jogadores, baixe ao mesmo nível.

Quando Lisca, com uma autoridade que faria qualquer um acreditar que ele era o próprio VAR, garantia que o gol do Cruzeiro, legal por sinal, estava “um metro impedido”, parecia ser apenas mais do mesmo neste jogo de muitas pressões e nenhuma contribuição para o trabalho dos árbitros. Quando começou a olhar para o banco do Cruzeiro com a mesma frequência com que olhava o campo, já havia sinais de que algo estava indo além da conta. Quando disse a Fábio que “ninguém te tira do gol do Cruzeiro, então eu vou te tirar”, ficou claro que qualquer limite dos bons modos fora abandonado.

Lisca foi apenas o personagem do domingo, mas este período pandêmico já nos mostrou, entre outros, Mano Menezes chamando de malandro um atleta que denunciava uma ofensa racista e Abel Ferreira sendo hostil a árbitros a ponto de se desculpar na sala de coletivas. Sem contar a revelação, também obtida graças ao silêncio dos estádios, de que dirigentes de clubes são capazes dos comportamentos mais primitivos e das baixarias mais inqualificáveis. Já se sabia que o campo de futebol, no Brasil, é terra da malandragem, do ganhar a todo custo, da banalização da antiesportividade, um ambiente com leis próprias. Mas dos treinadores, deveríamos esperar algo diferente.

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