Picolé de boitatá

Alguns clubes ensaiam acreditar que têm TVs próprias no YouTube e no Facebook. Mas a relação com anunciantes e consumidores fica com o distribuidor – e a inteligência de dados também

Publicado em: 12 de Agosto de 2020
Foto Por: Getty Images
Autor: Globo Esporte Rio de Janeiro
Fonte: Globo Esporte
Ninguém discute que o futuro da transmissão esportiva inclui o streaming, mas ainda estamos longe disso

 Todo produtor de sorvete precisa que seu produto chegue ao consumidor. Alguém – seja empregado ou contratado – leva o pote gelado até a sorveteria. Assim também funciona o futebol: os jogos (sorvetes) precisam de transporte (produção) para chegar no sorveteiro (distribuição). Antes da TV, o único jeito de chupar picolé era na fábrica (ou no estádio). Muito menos gente apreciava um chicabon – ou via os jogos.

 

+ Este artigo é continuação do texto "Apetite Digital", publicado na semana passada. Leia AQUI

A televisão catapultou o negócio futebol para o proverbial outro patamar. Levar as imagens de um jogo de futebol até o consumidor exige tecnologia. Você precisa produzir o sinal audiovisual, tirá-lo do estádio (através de um caminhão com antena ou fibra ótica) e entregá-lo para plataformas de distribuição. Em todos os casos há intermediários. Em nenhum existe almoço gratuito.

 

O intermediário vende conveniência. Ele precifica transporte e localização – para que você possa tomar sorvete na esquina, na praia ou em casa. Nesse cenário alguns clubes ensaiam acreditar que têm TVs próprias abrigadas no YouTube e no Facebook. Essa visão ignora que a relação com anunciantes e consumidores fica com o distribuidor – e a inteligência de dados também. Acreditar em “TV própria” nesse cenário é como acreditar num picolé de boitatá.


Usar as plataformas como canal de marketing faz sentido – até para morder um ou outro capilé. Mas, nesse jogo, ninguém oferece conveniência por amizade. Google, Facebook, Netflix e Amazon são ameaças ao status quo da mídia tradicional porque atacam seus modelos de negócio (publicidade e assinaturas). Cada um deles tem sua particularidade – e deve seu sucesso a oferecer (ou agregar) serviços inéditos. Todos são ou podem ser intermediários. A diferença é que usam roupa nova com bolso fundo.

 

Ninguém discute que o futuro da transmissão esportiva inclui o streaming – ou uma transmissão muito diferente da atual. Os ensaios atuais de Twitch e YouTube meramente arranham a superfície do porvir. As possibilidades editoriais, comerciais e sociais que o casamento entre 5G e machine-learning trazem são de outra galáxia. Mas ainda estamos longe disso – em especial no Brasil. Aqui o espectador online ainda sofre.

 

O atraso do sinal é muito maior do que na TV tradicional – até 20 segundos a depender de cada rede. Com isso, a informação do gol chega antes via aplicativo, rádio ou grito de vizinho. Esse delay gigante é transitório – a questão é o que fazer quando ele for superado. Alguns produtores ensaiam parcerias com plataformas (NFL com Amazon, Media Pro com Netflix na França). Nos EUA, as grandes redes de TV alinhavam suas ofertas de streaming.

 

O futebol brasileiro deveria estar pensando em como operar nesse futuro – quem sabe abandonando sua eterna guerra civil. Nada impede uma desintermediação total - ou que o produtor de sorvete seja dono da sorveteria. Mas a natureza do negócio muda – custos e riscos aumentam. Em qualquer campeonato há um número finito de jogos – e exclusividade tem valor. Como anotamos no artigo anterior, a NFL – que entende um pouco de fazer dinheiro – segue repartindo suas janelas americanas entre as grandes redes de TV (sem deixar de testar novos horizontes).

 

Muitos clubes saudaram a MP 984 como uma espécie de lei áurea – como se os contratos que pagam mais de R$ 1 bilhão anualmente aos clubes os transformassem em escravos. O mero debate pode evoluir a discussão sobre direitos do futebol – mas dado o histórico dos clubes brasileiros... isso está longe de ser uma certeza. Certo é que a MP gerada na calada da pandemia gerou uma brutal insegurança jurídica em meio a uma crise sanitária e econômica.

 

É cedo para prever o fim desse filme. Se os direitos se fragmentarem, ver os jogos pode se tornar mais difícil – e até mais caro. Isso sem falar em questões esportivamente relevantes: quem vai produzir cada jogo? Se o produtor do sinal tiver lado... que garantia a transmissão terá de imparcialidade? Aquele pênalti contra terá replay? O VAR será gerado e pago por quem? Isso, porém, é tema para outra coluna.

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