"Olimpíadas podem ser a luz no fim do túnel que a humanidade está", diz número 2 do COI

Em entrevista exclusiva, o australiano John Coates, presidente da Comissão de Coordenação dos Jogos Olímpicos de Tóquio, fala de doping, atletas, Japão, Brasil e o adiamento para 2021

Publicado em: 08 de Abril de 2020
Foto Por: Hanna Lassen/Getty Images
Autor: Marcel Merguizo — São Paulo
O presidente do COI, o alemão Thomas Bach, e o australiano John Coates

Sem precedentes. O australiano John Coates, um dos mais respeitados e influentes dirigentes do mundo olímpico, gosta de usar essa expressão. Assim ele define o adiamento das Olimpíadas de Tóquio em um ano. É um fato: nunca havia ocorrido o adiamento de uma edição em 124 anos de história olímpica. A mudança da data da abertura de 24 de julho de 2020 para 23 de julho de 2021 teve Coates na mesa de negociação. Ele é o presidente da Comissão de Coordenação dos Jogos de Tóquio. E confirma nesta entrevista exclusiva ao GloboEsporte.com que o adiamento poderia ter sido um cancelamento, tudo por causa da pandemia da Covid-19, doença que o advogado australiano também descreve como sem precedentes para a humanidade.

Sem precedentes também foi a forma que Coates, então vice-presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), definiu a preparação do Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos em 2016. Presidente do Comitê Olímpico Australiano desde 1990, o ex-praticante de remo disse ainda em 2014 que seria necessário criar uma força-tarefa para ajudar o Brasil a organizar aquelas Olimpíadas, algo que nunca tinha acontecido, por isso disse que os preparativos da Rio 2016 eram os piores que tinha visto. Desta vez, porém, nesta entrevista concedida por e-mail, ele não quis comparar a organização do Rio com a de Tóquio. Pelo contrário, elogiou as Olimpíadas cariocas, apesar de dizer que Tóquio é a cidade mais bem preparada de todos os tempos. Cria, inclusive, uma expectativa gigante sobre a próxima Olimpíada.

- Estes Jogos Olímpicos e a chama olímpica podem ser uma luz no fim deste túnel muito escuro pelo qual a humanidade está atravessando no momento, e pela qual não sabemos quanto tempo será - afirma John Coates.

Prestes a completar 70 anos, no início de maio, o que o faria perder o lugar que ocupa desde 2001 como membro do COI, Coates está em Sydney, em confinamento, mas participando de todas reuniões e decisões importantes sobre os Jogos de Tóquio. O australiano seguirá no COI até 2024, porque preside a Comissão de Assuntos Jurídicos, assim como já esteve à frente de assuntos como diretos de transmissão, candidaturas entre outras. Coates é, afinal, um dos membros mais próximos do presidente Thomas Bach, alemão que preside o COI desde 2013. Considerado o número 2 do Comitê Olímpico Internacional, o australiano concede a entrevista abaixo ao GloboEsporte.com.

Você já enfrentou um problema tão grande no COI como esta pandemia de Coivid-19?
Comparações entre diferentes situações são sempre difíceis de fazer. Antes dos Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang 2018, tínhamos conversas sobre ataques nucleares, boicotes e se poderíamos ter Jogos na Península Coreana. Antes do Rio 2016, houve conversas sobre o vírus da zika e também estávamos em consulta com a Organização Mundial da Saúde. Então, se você olhar mais para trás, houve o ataque terrorista em Munique 1972, o boicote africano em Montreal em 1976, o boicote a Moscou 1980 e o contra-boicote a Los Angeles 1984. Certamente podemos dizer que o que temos agora é uma crise sem precedentes para a humanidade. Portanto, também é um desafio sem precedentes para os Jogos Olímpicos, que levou ao primeiro adiamento dos Jogos na história olímpica.

O cancelamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 foi considerado? Por que retrocederam?
O cancelamento foi discutido e considerado, como todas as opções em cima da mesa. Mas ficou muito claro desde o início que o cancelamento não deveria ser algo que o COI apoiasse, porque nossa missão é organizar os Jogos Olímpicos e tornar realidade os sonhos olímpicos dos atletas. O cancelamento destruiria os sonhos de 11 mil atletas de todos os 206 comitês olímpicos nacionais, da equipe olímpica de refugiados do COI, dos atletas paralímpicos e de todas as pessoas que estão apoiando atletas como treinadores, médicos, oficiais, parceiros de treinamento, amigos e familiares.

É uma crise sem precedentes para a humanidade. Portanto, também é um desafio sem precedentes para os Jogos Olímpicos, que levou ao primeiro adiamento dos Jogos na história olímpica

Qual foi a maior dificuldade em relação ao adiamento? A parte financeira, a agenda das federações internacionais ou algum outro aspecto?
Os Jogos Olímpicos são como um enorme quebra-cabeça e cada peça precisa se encaixar. Se você retirar uma peça, o quebra-cabeça não está completo. Portanto, tudo tem que se unir e tudo é importante. Os Jogos nunca foram adiados antes, então não temos um plano para isso. É por isso que a Comissão de Coordenação do COI, juntamente com o Comitê Organizador, formou uma força-tarefa chamada "Aqui vamos nós" para lidar com todos esses desafios.

Se essas Olimpíadas não fossem no Japão, você acredita que os Jogos de 2020 teriam sido cancelados?
É difícil falar sobre hipóteses, mas é verdade que o profissionalismo e a dedicação do Comitê Organizador fizeram de Tóquio a cidade olímpica mais bem preparada de todos os tempos. No entanto, também conhecemos o profissionalismo da Comissão de Coordenação do COI e do Departamento de Jogos Olímpicos, o que nos deixa confiantes de que podemos superar esse desafio e realizar maravilhosos Jogos.

O cancelamento foi discutido e considerado (...) Mas destruiria os sonhos de 11 mil atletas

Os Jogos Olímpicos de Tóquio, agora em 2021, podem ser uma celebração da vida, do mundo? (O adiamento) pode ser um marco para os Jogos em direção à união dos povos e não apenas sobre um evento esportivo que movimenta bilhões de dólares?
Todos esperamos -e trabalharemos para isso- que esses Jogos sejam uma celebração da humanidade depois de superar o desafio sem precedentes do coronavírus. Estes Jogos Olímpicos e a chama olímpica podem ser uma luz no fim deste túnel muito escuro pelo qual a humanidade está atravessando no momento, e pela qual não sabemos quanto tempo será.

Como está o relacionamento do COI com o comitê organizador de Tóquio 2020 em comparação com os organizadores do Rio 2016? Quais são as principais diferenças, positivas e negativas?
O COI tem um excelente relacionamento com o Comitê Organizador de Tóquio 2020, como foi visto pela estreita colaboração e rapidez na tomada de decisões durante esse período excepcional (durante a decisão do adiamento). Naturalmente, a maneira de operar um Comitê Organizador muda de acordo com a cultura local e é por isso que não comparamos, mas estamos confiantes de que, como foi o caso do Rio, Tóquio entregará Jogos Olímpicos de muito sucesso no próximo ano.

O profissionalismo e a dedicação do Comitê Organizador fizeram de Tóquio a cidade olímpica mais bem preparada de todos os tempos

Como o movimento olímpico vê o Brasil hoje, depois dos Jogos Rio 2016? E em relação ao Time Brasil?
Como presidente do Comitê Olímpico Australiano, não quero fazer uma previsão sobre o desempenho de outro Comitê Olímpico Nacional. O que posso dizer, porém, é que o Brasil sempre foi um membro importante do Movimento Olímpico, dando uma contribuição importante à nossa missão de entregar um mundo melhor através do esporte. Os atletas brasileiros estão sempre muito bem preparados e, como mostraram no Rio, podem ganhar medalhas nos Jogos em uma grande variedade de esportes.

Atletas por todo o mundo não estão treinando atualmente. Essa parada no ano que antecede os Jogos pode, esportivamente, ser ruim para a Olimpíada de Tóquio?
Esta é uma das razões pelas quais foi decidido realizar os Jogos exatamente um ano após as datas originalmente planejadas para 2020. Essas novas datas dão às autoridades de saúde e a todos os envolvidos na organização dos Jogos o tempo máximo para lidar com as constantes mudança de cenário e as perturbações causadas pela pandemia da Covid-19. Eles também têm o benefício adicional de que qualquer interrupção que o adiamento cause ao treinamento e o calendário esportivo internacional possam ser reduzidos ao mínimo. Além disso, eles terão tempo suficiente para concluir o processo de qualificação.

Essas novas datas [dos Jogos, de 23 de julho a 8 de agosto de 2021] dão às autoridades de saúde e a todos os envolvidos na organização dos Jogos o tempo máximo para lidar com as constantes mudança de cenário e as perturbações causadas pela pandemia da Covid-19

Por falar nos atletas. Foi a pressão deles que levou o COI a anunciar o adiamento dos Jogos Olímpicos mais rapidamente e logo após já dizer a nova data: 23 de julho de 2021?
O COI sempre levou em consideração a voz dos atletas, que desempenham um papel muito importante. Estamos em constante contato com a Comissão de Atletas, cujo a presidente, Kirsty Coventry, é membro do Conselho Executivo do COI e participa de qualquer consulta, decisão e voto. Houve ligações entre a Comissão de Atletas e muitos representantes de atletas em todo o mundo. Uma dessas ligações contou com mais de 200 representantes de atletas e ninguém pediu o cancelamento dos Jogos. Também levamos em consideração as muitas vozes de atletas que ouvimos de todo o mundo que não estavam nessas chamadas.

Agora, o que o COI está fazendo em relação ao controle de doping para os Jogos Olímpicos de Tóquio, porque os atletas não estão sendo testados e as agências estão fechadas no momento?
A prioridade do COI de proteger a saúde de todos e ajudar a combater a disseminação do COVID-19 também se aplica a todos os envolvidos nos programas antidopagem em todo o mundo, de modo que as medidas restritas de movimento e interação que foram implementadas pelos governos nacionais precisam ser respeitadas por esses programas também. No entanto, várias medidas na luta contra o doping têm e continuarão a ser adotadas para proteger atletas limpos e garantir que os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 e os eventos de qualificação sejam realizados nas melhores condições possíveis. O COI já possui um Grupo de Especialistas em Pré-Jogos, administrado pela Agência Internacional de Testes, envolvendo especialistas em antidoping de Federações Internacionais e Organizações Nacionais de Antidopagem, em consulta com a Agência Mundial Antidoping (WADA, na sigla em inglês), que ajudará a mitigar o impacto dessa redução nos testes. Este grupo de especialistas emitirá novas recomendações para testar possíveis atletas olímpicos à luz da data confirmada dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 e, em seguida, acompanhará de perto a conclusão das recomendações de testes. A WADA está monitorando programas de testes em todo o mundo -inclusive no contexto atual- e garantirá que o sistema possa retornar à potência máxima o mais rápido possível, assim que as várias restrições forem levantadas.

As amostras pré-Jogos serão armazenadas por 10 anos (...) Atletas que usam substâncias proibidas durante esse período de testes reduzidos ainda podem ser capturados no futuro

Como anunciado pelo presidente do COI, Thomas Bach, em novembro de 2019, as amostras pré-Jogos serão armazenadas por 10 anos, para que, se novos métodos analíticos estiverem disponíveis, eles possam ser usados ​​no futuro. O sucesso da reanálise das amostras de Pequim 2008 e Londres 2012 fornece um impedimento extra, pois mostra que os atletas que usam substâncias proibidas durante esse período de testes reduzidos ainda podem ser capturados no futuro. A WADA também incentiva as Organizações Antidopagem a priorizar o armazenamento de amostras colhidas após a pandemia do Covid-19. A WADA também as incentiva a coletar informações durante esse período que possam ser usadas no futuro. O Grupo de Especialistas em Pré-Jogos usará essa inteligência para ajustar adequadamente seu plano de distribuição de testes na preparação para os Jogos. E depois nos próprios Jogos. Finalmente, o Passaporte Biológico para Atletas continuará sendo um programa importante nas próximas semanas e meses, pois permitirá que as Organizações Antidopagem identifiquem qualquer resultado anormal nos testes dos atletas durante um período de tempo, mesmo que haja lacunas no planejamento dos testes.

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