Professor guarda livro de 1797 que sobreviveu a incêndio durante o governo Vargas

Segundo Erwin Tochtrop, a obra pertence ao avô alemão, que chegou ao Brasil em 1924. Casa da família foi incendiada após o Brasil entrar na segunda Guerra Mundial.

Publicado em: 29 de Junho de 2020
Foto Por: Arquivo Pessoal
Autor: Jesana de Jesus, TV Anhanguera
Fonte: G1 Tocantins.
Erwin conta que foto foi tirada durante incênio dos móveis da família, na ditadura Vargas

O professor Erwin Tochtrop é um apreciador de livros. Na biblioteca em Palmas, há obras centenárias as quais fazem parte da história da família alemã, que chegou ao Brasil em 1924, à procura de emprego após recessão na Alemanha. Uma das relíquias é guardada com muito cuidado, em um pequeno baú. Trata-se de um livro do ano de 1797, que ganhou do avô, e que sobreviveu a um incêndio durante o governo de Getúlio Vargas.

"Uma das coisas que chamam a atenção neste livro antes de mais nada é o ano da sua impressão, 1797. A casa dos meus avós, pouco antes do final da guerra [ 2ª Guerra Mundial] foi destruída. Os móveis foram todos colocados na rua e queimados, porque eram alemães. Inclusive tem uma foto que é muito característica dessa época, já foi motivo de reportagem, que é a cama do meu pai no meio da rua sendo queimada. Na época, ele tinha dois, três anos. Esse livro, sobreviveu à queima de livros que era uma coisa que as ditaduras sempre, infelizmente, buscam, acabar com a história, acabar com a memória", relatou Erwin.

A queima foi registrada em 1942. A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial deu início a uma onda de violência contra imigrantes germânicos em todo o país. Após ataques a seis navios na costa brasileira, a população saiu às ruas e destruiu estabelecimentos que tinham ligação com os países considerados inimigos, como a Alemanha. No Rio Grande do Sul, casas, lojas e igrejas foram os principais alvos da revolta.

Os imigrantes alemães foram perseguidos e muitos acabaram sendo torturados. Famílias inteiras precisaram fugir e se refugiar em comunidades próprias, conhecidas como colônias e que até hoje mantêm a cultura germânica.

Depois do incêndio na casa dos avós de Erwin, o livro se manteve intacto e tornou um dos símbolos da história da família, que vive no Rio Grande do Sul.

O professor se mudou para Palmas com a mulher Eliane Cecília Tochtrop há cinco anos e ainda não conseguiu trazer todos os exemplares que compõem a biblioteca. No pequeno baú há obras centenárias.

"Todas elas são históricas e tem um laço familiar bastante grande. Por exemplo, esse aqui é um livro de cantos que pertenceu ao meu avô. Quando ele foi para universidade, ele ganhou esse livro do irmão dele. Tem uma característica, que o livros tem cravos na parte da frente e de trás. Para que serve? Como eu falei, é um livro de cantos para as músicas serem cantadas nos bares. Então, ele fica a uma determinada altura quando se abre [por causa dos cravos] e se a gente sem querer derramar o copo de cerveja, que está tomando, o líquido flui sem estragar o livro".

A mulher Eliane, professora da língua alemã, também é uma apreciadora de livros e guarda obras antigas. "A minha relíquia é esse dicionário de alemão para português e português para alemão, de 1901. E ele foi escrito em gótico, então como eu sou professora de alemão, isso para mim é um valor sentimental, histórico, um valor imenso. Eu fui presenteada, na minha formatura, por uma amiga, professora também".

O professor Erwin não se lembra ao certo como e quando nasceu a paixão pela leitura. Mas ele guarda na biblioteca um dos primeiros livros que ganhou, da professora na 4ª série do ensino fundamental.

"Eu acho que dizer quando é um pouco difícil, mas eu acredito que desde as primeiras letras, do aprender a ler suscitou essa vontade dos livros na minha vida. Tanto que eu sempre gosto de mostrar aquilo que eu considero o livro número 1 na minha biblioteca. É um livro que ganhei em 1973 da minha professora e desde então ele vem me acompanhando".

O casal conta que tem orgulho de guardar os exemplares que carregam histórias. As páginas envelhecidas e amareladas, as capas castigadas pelo tempo, que só não consegue destruir o amor e o hábito pela leitura.

"Tudo o que ele passa, tudo o que ele viveu, ele leva junto. Eu acredito que um livro é a forma de a gente manter um pouco viva a nossa história, para que outras gerações possam também conhecer um pouco dela", diz Eliane.

"Eu digo que livro é um alimento, é o alimento para mente, é o alimento que nos faz refletir, pensar, viajar. Cada um desses livros tem um pensamento, tem uma pessoa. Uma história por trás, a gente está se apropriando da história dessa pessoa", comenta Erwin.

Cuidado com as obras

Os apreciadores de um bom livro precisam ter cuidados para que as obras possam ficar conservadas por um longo tempo. A professora, escritora e coordenadora de biblioteca Gislene Camargo dá algumas dicas simples que podem fazer a diferença.

"É preciso observar desde a posição deles na estante. Você sempre coloca no sentido vertical, porque se você deixá-los deitados, pode ser que eles fiquem tortos. Outra coisa, se você quiser pegar um livro, nunca pega numa ponta ou na outra. Você afasta [os outros] e pega. Conservar os livros limpinhos e as mãos, ao manusear, têm que estar limpas. Jamais deixar os livros embalados, porque os livros precisam respirar. A questão da luminosidade adequada, a umidade, evitar fazer refeições com os livros às mãos", disse.

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