TEMPO REAL / Araguaína tem mais casos de Covid-19 porque testa mais ou testa mais porque tem mais casos de Covid-19?

Publicado em: 26 de Maio de 2020
Autor: ​Cleber Toledo 
Fonte: ​Cleber Toledo 

Os mais velhos se lembram da campanha publicitária da década de 1980 que alavancou uma marca de biscoitos a fenômeno de mídia e vendas. Criada pelo publicitário Enio Mainardi, a peça elevava uma dúvida de fundo comercial ao patamar de mistério humano: “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?” O dilema saiu da publicidade e ganhou versões sobre dramas mais reais. É o chamado “efeito Tostines”.



Um exemplo dele está ocorrendo no Tocantins neste momento em que o debate é o motivo da avalanche de Covid-19 em Araguaína, enquanto Palmas, ainda que preocupantes, mantém os registros diários da doença em níveis bem mais baixos. É o que dá a deixa para a pergunta do “efeito Tostines”: Araguaína tem mais casos de Covid-19 porque testa mais ou testa mais porque tem mais casos de Covid-19?

 

“A escorregada do município, por mais que Dimas e seu grupo neguem, foi a reabertura do comércio, mesmo que com aquele adendo inútil previsto nos decretos do tipo, “com restrições”, que não restringe nada”



O prefeito de Araguaína, Ronaldo Dimas (Podemos), não titubeia em cravar que sua cidade é a que mais testa na região Norte, no Tocantins e está entre as que fazem mais buscas pelo novo coronavírus no Brasil. E, para ele, quem procura, acha. A chefe do Executivo da Capital, Cinthia Ribeiro (PSDB), não entra nessa dividida com o colega da Capital Econômica do Estado para evitar canelada. Porém, está convicta de que Palmas voa mais baixo na pandemia por conta da firmeza de sua mão, que não cedeu à pressão de empresários e igrejas pela retomada das atividades.



Observador atento dos dois lados, tendo a dizer que ambos têm certa razão, mas também que jogam na retranca para que seus adversários não marquem gols. No caso de Araguaína, é verdade que o prefeito Ronaldo Dimas preparou mais a cidade para o combate à Covid-19. Em três grandes frentes: na estruturação de leitos clínicos e de UTIs para os doentes, na aquisição de testes e na assistência social.



A rede hospitalar do município, privada e pública, com isso, conseguiu garantir 89 leitos exclusivos para tratamento de pacientes com o novo coronavírus, dos quais 28 de UTI e 61 clínicos, além de sete unidades de retaguarda na UPA, duas delas para terapia intensiva. Também adquiriu mil testes rápidos e recebeu outros 1.630 do Ministério da Saúde, via governo do Estado, além de 450 doados pelas empresas Minerva Foods e Gelnex. O município ainda comprou 6 mil tubos e 12 mil swabs para a montagem dos kits de coleta do exame PCR.



A prefeitura tem por testemunha inquestionável desse bom trabalho, no que diz respeito à testagem, o próprio Relatório Situacional de Enfrentamento à Covid-19, da Secretaria de Saúde do Estado do Tocantins (Sesau), divulgado na sexta-feira, 22. O documento mostra que o número de testes em Araguaína por RT-PCR, o método mais confiável para detectar a doença, é 67,2% superior à de Palmas.  



Na assistência social, para socorrer a população mais pobre, desempregada por contingência da pandemia, Dimas, logo na primeira reunião no início de março, mandou que fossem compradas 21 mil cestas básicas. Um segundo pregão já foi realizado para mais 30 mil, que estão sendo desovadas de acordo com a necessidade.



A escorregada do município, por mais que o prefeito e seu grupo neguem, foi a reabertura do comércio, mesmo que com aquele adendo inútil previsto nos decretos do tipo, “com restrições”, que não restringe nada. Após retomada da economia, no dia 30 de março, a cidade passou algumas semanas de calmaria até a chegada do tsunami. Foi o tempo de encubação, de transferência do vírus dos assintomáticos para os sintomáticos, até a explosão, cujos efeitos arrasadores ainda são sentidos e ninguém sabe até quando vão.



Claro que a retomada do comércio de Araguaína não pode ser vista como fator único. A cidade fica às margens da BR-153, a rota que o novo coronavírus percorreu para tomar o Tocantins. Além disso, o município está a um pulo de Maranhão e Pará, dois Estados que vão sendo cada dia mais engolidos pela Covid-19, e de onde o vírus fincou bandeira no combalido Bico do Papagaio. 



Agora, não há como ignorar que a reabertura da economia araguainense contribuiu. Se o novo coronavírus desembarcou na cidade vindo pela BR-153 ou por viajantes que estiveram nos Estados vizinhos, sua distribuição pelos bairros se deve à intensa movimentação de pessoas. E nada proporciona tanto esse vai-e-vem necessário para o vírus se espraiar do que a agitação de feiras e lojas.



Em Palmas, a prefeita Cinthia Ribeiro segurou bem a porteira, que empresários e igrejas tentam até agora arrombar para retomar uma vida normal que não existirá mais até que a Covid-19 esteja derrotada. As ações do município, contudo, não foram muito além disso.

 

Tentou trazer 6 mil testes rápidos e a empresa não deu conta de entregar a encomenda. Anunciou estar contratando 18 leitos clínicos e 17 de UTIs da rede privada de saúde, mas a própria prefeita admitiu em coletiva na sexta-feira que a concretização do negócio depende da solução da pendenga entre Ministério Público e Estado, que requisitou administrativamente 70% das unidades particulares, depois que pacientes do Pará começaram a chegar a Palmas do céu numa revoada pandêmica.
 

Nas últimas semanas, a Capital veio entregando os anéis para não ficar sem os dedos: flexibilizou para lojas de construção, lotéricas e feiras — estive sexta, 22, na Feira da 304 Sul e não há o mínimo protocolo, com exceção do álcool em gel nas bancas e as pessoas de máscara, porém, numa aglomeração que faz a Covid-19 se agitar de contentamento. Por último, até para o transporte público, a prefeita cedeu. Cinthia queria permitir que os ônibus circulassem com 100% de lotação, com as cabeças dos pobres trabalhadores a coisa de 50 centímetros umas da outras. A Justiça, no entanto, acabou com o “coronatur”, recolocando bom senso na quarentena. Os veículos tiveram que voltar à lotação de 50%.



Mas, voltando ao nosso “efeito Tostines”, conseguiu decidir se Araguaína tem mais casos de Covid-19 porque testa mais ou testa mais porque tem mais casos de Covid-19?



Com o conceito de outra campanha publicitária de sucesso, essa já dos anos 1990, minha única certeza é que Tostines nunca foi lá assim uma Brastemp.

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