Estudo avalia eficácia de cogumelos alucinógenos para tratamento da depressão

Psilocibina, uma substância psicodélica encontrada em um tipo de cogumelo, é segura para o consumo por pessoas mentalmente saudáveis, aponta estudo em fase inicial.

Publicado em: 21 de Dezembro de 2019
Foto Por: Getty Images/BBC
Autor: Laís Modelli, G1
Fonte: G1
Psilocibina, uma substância psicodélica encontrada no cogumelo mágico, é segura quando consumida por pessoas saudáveis e em ambientes controlados

 A psilocibina, uma substância psicodélica encontrada em um tipo de cogumelo, é segura para o consumo por pessoas mentalmente saudáveis. Foi o que concluiu a primeira fase de um estudo conduzido pelo King´s College London, no Reino Unido, sobre o potencial uso da psilocibina no tratamento de pacientes depressivos.

O coordenador da pesquisa, James Rucker, líder do grupo de pesquisa em Estudos Psicodélicos do King's College London, explica que se consumida por “pessoas saudáveis em um ambiente controlado por médicos e psicologicamente favorável, a psilocibina é segura e bem tolerada”.

Após o consumo da substância, os voluntários ficaram em uma sala monitorada por um psiquiatra por seis horas. “Não houve eventos adversos graves e os efeitos colaterais que ocorreram, como a alteração da percepção, já eram esperados. Isso não significa que é seguro tomar psilocibina fora de um ambiente médico”, afirma.

A fase 2 e 3 do estudo se concentrará em descobrir se o psicodélico é eficaz para a depressão. “Precisamos de mais ensaios e estudos antes de testar a substância em deprimidos. Mas esses estudos estão em andamento e devem ser concluídos nos próximos cinco anos”, afirma Rucker. Segundo o acadêmico, a pesquisa da psilocibina está em desenvolvimento clínico para depressão em centros nos Estados Unidos, Canadá e Europa.

“O que podemos afirmar até o momento é que a terapia assistida por psilocibina, feita de modo intermitente e fornecida em um ambiente hospitalar seguro, contrasta com a necessidade de se tomar um antidepressivo todos os dias em casa”, explica o britânico.

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Os resultados preliminares foram apresentados no dia 11, durante o 58º encontro anual da American College of Neuropsychopharmacology (ACNP).

Avaliação dos pontos polêmicos

Sem participar do estudo e analisando o cenário geral do estudo, o médico psiquiatra titular da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Marcelo Avelato, aponta que o que se conhece sobre os usos terapêuticos de psicoativos ainda é muito limitado.

“Tudo que já se pesquisou sobre o uso de psicoativos no tratamento de transtornos mentais obteve resultados modestos e não há nenhuma eficácia comprovada”, afirma Avelato. “O canabidiol, por exemplo, está na moda, mas ainda precisamos de muitos estudos para se falar do uso da substância no tratamento da depressão”.

Se comprovada a eficácia da substância encontrada no cogumelo mágico, Avelato acredita que esse tipo de terapia não convencional será ainda mais cara que a convencional. “Será um tratamento com custo elevado, pois é preciso ser feito em um ambiente hospitalar e com um acompanhamento médico por horas. Não é barata manter essa estrutura”, avalia.

Apesar dos contras, o psiquiatra brasileiro é a favor dos estudos sobre o uso da psilocibina no tratamento de depressivos. “Ainda existem necessidades não atendidas no tratamento da depressão, como os casos em que os pacientes são resistentes ao tratamento convencional."

De acordo com Avelato, um terço dos pacientes com depressão não terão resultados eficazes ao tratamento convencional. Para essa parcela resistente, o médico explica que há alternativas como a polêmica terapia eletroconvulsiva e antidepressivos usados somente para esses tipos de casos com sintomas residuais - alguns ainda não liberados para uso no Brasil.

“Esses pacientes resistentes não ficarão tão mal quanto estavam no começo da terapia, mas ainda terão sintomas residuais importantes da depressão”, explica o psiquiatra. "Se liberada, a substância será uma opção a mais no tratamento da depressão, principalmente para os casos resistentes à terapia”.

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