Cerca de 460 indígenas são contaminados com Covid-19; barreiras são montadas para evitar disseminação

A maior quantidade dos casos está na Ilha do Bananal. Uma das barreiras foi construída na aldeia Funil, pelo povo Xerente, no município de Tocantínia.

Publicado em: 03 de Agosto de 2020
Foto Por: Divulgação
Autor: G1 Tocantins.
Fonte: G1 Tocantins.
Bloqueio feito pelos indígenas em acesso de aldeia

O novo coronavírus chegou a cinco etnias do Tocantins: Karajá, Javaé, Krahô, Xerente e Apinajé. São cerca de 460 indígenas infectados com a doença, segundo dados do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei-TO) divulgados neste domingo (2).

 

A maior quantidade dos casos está na Ilha do Bananal, que concentra mais de 300 diagnósticos. No total, o estado já registrou nove mortes.

 

Segundo dados da Funai, o estado tem 15,6 mil indígenas distribuídos em nove etnias.

A segunda região com mais registros é a de Tocantínia, entre o povo Xerente. Preocupados, indígenas continuam com barreiras sanitárias nas entradas das aldeias.

 

"É preciso que os indígenas tenham acesso à informação confiável, de qualidade, e principalmente, no seu idioma nativo. É importante também que nós tenhamos condições de remover os pacientes graves das aldeias para atenção terciária de forma rápida e eficaz ", argumentou a médica Danuta Naru.

 

Uma das barreiras foi construída na aldeia Funil, pelo povo Xerente, no município de Tocantínia. Quem não for indígena, não pode entrar no território. A barreira fica a cerca de um quilômetro da comunidade e é uma das estratégias para evitar a disseminação da Covid-19.

 

Barreiras foram instaladas em outras regiões, como por exemplo, em Lagoa da Confusão. No mês de junho, uma comunidade de indígenas chegou a impedir funcionários da prefeitura da cidade de entrar na aldeia, na Ilha do Bananal.

 

Em março, grupos bloquearam entradas de comunidades e montaram uma guarita entre os municípios de Itacajá e Goiatins.

 

O promotor de Justiça João Edson, que atua na área do povo Xerente, ressaltou a importância dessa vigilância feita pelos próprios indígenas.

"Embora não seja a medida mais adequada, uma vez que a estruturação dessas barreiras, exige treinamento e também a utilização de equipamentos de proteção, têm-se mostrado positiva", disse.

 

O jornalista Edivaldo Xerente vive na cidade de Tocantínia e auxilia as aldeias da região. "Tem a TO-010, que corta a área indígena e a TO-342 que vai para Aparecida do Rio Negro. Todas as três saídas, a saída para Palmas, que tem a aldeia Funil, e a saída para Aparecida e Pedro Afonso, que tem a terra indígena Xerente, onde tem a maior população. Então, acaba que essa barreira faz essa fiscalização dos indígenas que vêm da aldeia para a cidade e que vai da cidade para a aldeia".

 

Há duas semanas, a Justiça Federal determinou que a União e a Funai entreguem kits de higiene e de alimentação e que tomem providências para agilizar o transporte dos infectados. Também ordenou o envio de médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagens para a Ilha do Bananal. A decisão é do juiz federal Eduardo de Assis Ribeiro Filho, da Vara Federal de Gurupi.

 

O antropólogo Marcio Santos afirma que o ideal seria que a doença nem sequer tivesse chegado às aldeias.

 

"As populações indígenas têm muitas concepções sobre saúde e doença, diferentes das nossas, da sociedade ocidental. Para os povos, a própria ideia de um vírus está muito distante da sua cosmologia, da sua maneira de enxergar o mundo. Então, compreender que essa doença é causada por um micro-organismo, principalmente para as pessoas que vivem com menos contato com a sociedade, é um desafio muito grande".

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.