Fiéis lamentam cancelamento da Romaria do Senhor do Bonfim, em Natividade: Dói o coração

Celebrações que atraem milhões de pessoas foram canceladas por causa da pandemia do novo coronavírus.

Publicado em: 07 de Julho de 2020
Foto Por: Glauber Matos/Arquivo Pessoal
Autor: Letícia Queiroz e Jesana de Jesus, G1 Tocantins
Fonte: G1 Tocantins.
Multidão se reúne em devoção ao Senhor do Bonfim, em Natividade

Católicos de todo o Tocantins estão lamentando o cancelamento da Romaria do Senhor do Bonfim, maior peregrinação religiosa de todo o estado. É que por causa da pandemia do novo coronavírus e da recomendação de distanciamento social, a festa, que acontece há mais de 200 anos e atrai milhares de pessoas, não vai poder ser realizada este ano. "Me dói o coração por não ter a romaria", disse um fiel.

 

Neste ano a festa aconteceria entre os dias 6 e 17 de agosto. Apesar da tristeza, os fiéis já se preparam para pagar promessas ou agradecer pelas bênçãos alcançadas nas celebrações de 2021.

 

Esta é a primeira vez em 22 anos,que o aposentado Joaquim José Alves, de 65 anos, não participará da festa. Ele é devoto do Senhor do Bonfim e conta que voltou a andar por um milagre realizado pelo santo.

 

Morador de Porto Nacional, ele relata que sofreu um acidente de trânsito no ano de 1994. Ele conduzia um caminhão, numa rodovia entre Monte do Carmo e Pindorama, e foi atingido de frente por um outro caminhão, que seguia na direção contrária.

 

"Lembro que fiquei preso nas ferragens por duas horas. Muitas pessoas que moravam na região foram até o local me ajudar, levaram machado e outras ferramentas para me tirar das ferragens. Naquele momento, eu falei: 'Senhor do Bonfim, se eu conseguir sair daqui e conseguir andar, vou fazer a peregrinação'. Nesse momento, minha perna, mesmo quebrada, se soltou , saiu daquelas ferragens. Foi só a mão de Deus para me tirar", relatou.

 

O fiel relembrou que ficou três anos sem andar porque quebrou uma das pernas no acidente, foi submetido a cinco cirurgias e em 1998 voltou a andar. Neste ano, Joaquim começou a pagar a promessa que fez ao santo e nunca mais parou.

 

"Nesse ano de 1998, quando cheguei aos pés do Senhor do Bonfim, eu não consegui ajoelhar, a perna travou no lugar que tinha quebrado. Eu disse: 'Senhor do Bonfim, eu vim com tanta fé'. No outro ano, eu fui, consegui ajoelhar e a perna nunca mais falou", contou.

 

Todo ano, o fiel sai de Porto Nacional, onde mora, e vai até Natividade, de carro. Depois, começa a peregrinação a pé rumo ao povoado Senhor do Bonfim, onde a festa religiosa é realizada. Ao todo, são 30 quilômetros.

 

Ele disse que a romaria fará muita falta, mas que a pandemia trará uma lição aos cristãos.

"Me dói o coração por não ter a romaria. A falta do Senhor do Bonfim é grande, falta da peregrinação, dos fiéis. Mas, o povo está levando a festa como um negócio. Está sendo uma lição, acredito que ano que vem, as pessoas vão voltar com mais fé", concluiu.

 

A funcionária pública aposentada Margarida Maria Luiz Mendes de 59 anos também participa das missas há mais de 20 anos. Além de estar nas celebrações, ela ajuda nos serviços da igreja. "Vou antes porque tem muita gente trabalhando. As pessoas ficam limpando a igreja, as instalações. Eu fico cozinhando para ajudar o pessoal", disse.

 

De tão envolvida, a mulher resolveu batizar a filha, que é advogada. "A relação da minha filha com o Senhor do Bonfim é muito grande. Ela já foi de Gurupi caminhando duas vezes. Ela é apaixonada pelo padrinho dela", contou.

 

Margarida fica triste com a mudança repentina, por causa da pandemia, mas espera poder voltar logo à Romaria.

 

"Estou muito triste demais, mas vai passar. É muito bonita a festa, eu gosto muito. Tenho muita devoção, muito respeito e muita fé", informou.

 

A jovem Beatriz Ferreira de Sousa, 25 anos, também ficou triste com o cancelamento. Ela não lembra quando começou a frequentar a festa porque cresceu indo com a mãe à celebração.

 

"Vai ser uma quebra na devoção porque a gente nunca deixou de ir".

 

A professora conta que todos os anos organiza uma caravana com parentes de várias cidades. Eles costumam alugar uma van e ficar acampados em uma área perto da igreja. "Vão familiares de Porto Nacional, Paraíso do Tocantins e Palmas. A minha mãe me levava quando era pequena, agora eu levo ela", disse.

 

A jovem, que segue tradições, disse que gosta de estar na igreja com as pessoas que ama, mas entende que todos precisam cuidar da saúde.

"Esse ano a gente ia, e já estava tudo preparado. Quando a gente chega da festa já começa a preparar a ida para o outro ano, mas dessa vez infelizmente não deu porque temos que cuidar da saúde".

 

Romaria do Senhor do Bonfim

 

A tradição religiosa é tão antiga quanto o município, que foi o primeiro a ser fundado no território tocantinense. O evento acontece no povoado do Senhor do Bonfim, perto de Natividade. No ano passado a romaria atraiu cerca de 500 mil pessoas nos 11 dias de evento.

 

Os romeiros costumam sair do centro de Natividade a pé ou de bicicleta até o local da festa. São 23 quilômetros de distância de um ponto a outro. Como demonstração de fé, após promessas serem cumpridas, muitos fiéis percorrem caminhos ainda mais longos e as distâncias frequentemente chegam próximas a 200 km.

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